Hélio Pellissari e João Garcia - Jornal A Cidade - 30/01/2011
 

O jornalista Galeno Amorim, 48 anos, assume este mês a presidência da Biblioteca Nacional. Comandante do Observatório do Livro e da Leitura, ele retorna ao governo federal, onde esteve na primeira gestão de Lula, à frente do Programa Nacional de Livro e Leitura. Ele quer melhorar
os acervos das bibliotecas municipais e criar um programa para facilitar o acesso dos brasileiros ao livro. Petista e apadrinhado não-confesso de Antonio Palocci, o atual ministro da Casa Civil, Amorim é um intelectual que sabe conciliar o gosto pelos livros e a aptidão pelas mais modernas ferramentas da internet.

Hélio – Como surgiu o convite para o senhor assumir a presidência da Fundação Biblioteca Nacional?
Galeno Amorim – Tenho atuado em políticas públicas do livro e leitura há quase vinte anos. Estive nos vários lados do balcão, como escritor dando palestras para crianças, jovens, para pessoas mais velhas, para bibliotecários, tive já uma pequena editora. Criei instituições do terceiro setor, fui  secretário da Cultura em Ribeirão Preto. Tive experiência  internacional: fui presidente do Cerlat, que é da Unesco, fui consultor internacional da União dos Estados Ibero-Americanos. Sou blogueiro na área e como tal tenho 80 mil pessoas no meu blog e 50 mil pessoas que me seguem no twitter. Tudo voltado para a questão do livro e leitura, então, foi uma coisa meio natural.

Hélio – Qual é sua última ocupação?
Galeno – Sou presidente do Observatório do Livro e da Leitura, que faz estudos, pesquisas, tem uma revista eletrônica sobre o tema. Estou lá desde 2007. Na realidade, criei algumas instituições na área e o Observatório foi a mais recente.

Hélio – Foi veiculado que a sua indicação para a Biblioteca Nacional foi uma indicação do ministro da  Casa Civil, Antonio Palocci...
Galeno – Se fosse, seria uma grande honra. Ser indicado por uma figura da vida nacional como o Palocci, é motivo de  orgulho para qualquer um. Mas, no caso, foi uma coisa natural, que não precisou felizmente depender do Palocci, mas conto com o apoio dele para desenvolver o trabalho. Ele é um ministro importante, uma figura exponencial na vida brasileira. Ele é uma das pessoas mais importantes da República hoje. Posso dizer que foi uma decorrência natural de 20 anos de atuação. Todo debate, discussão de tema, que existe no Brasil neste tema, necessariamente estou presente, então eu tenho sido uma ator social presente nesta área.

Hélio – Como é assumir a Biblioteca Nacional?
Galeno – A Biblioteca Nacional é um dos organismos de cultura mais importantes do Brasil. Ela é mais velha do que a própria República. Tem uma importância extraordinária na vida nacional, não só na cultural. Tem atribuições que incluem, certamente, cuidar de um patrimônio de 9 milhões de livros e outros materiais do acervo, que faz dela uma das oito maiores do mundo. Além de guardar, de preservar, fazer com que este material possa circular, possa chegar um pouco mais na  população, apoiar o desenvolvimento de pesquisas. A partir da minha gestão, a Fundação Biblioteca Nacional incluirá por  algum tempo as responsabilidades também sobre as políticas públicas do Livro Leitura. Que significa incorporar, provisoriamente, a diretoria nacional do Livro Leitura e do Plano Nacional do Livro Leitura. Digo provisoriamente, porque uma das atribuições que a ministra me deu foi justamente criar as condições para a criação do Instituto Brasileiro do Livro Leitura. Aí sim, ele passa a ser responsável por toda a política pública.

Hélio – Como está o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas?
Galeno – Uma das minhas preocupações é fortalecer e  revitalizar esse sistema para que, além de abrigar os sistemas estaduais e as seis mil bibliotecas públicas municipais, ele passe tambéma incluir o sistema de bibliotecas comunitárias. O Brasil tem seis mil bibliotecas municipais, tem algo em torno de 30 a 40 mil bibliotecas comunitárias, 50 mil bibliotecas escolares ligadas aoMEC (Ministério da Educação)  e um grande número de bibliotecas universitárias. Tem também as bibliotecas estaduais, que são bibliotecas de  pesquisas, assimcomo as dos museus. A é criar um grande e forte sistema que possa ter um capítulo para cada tipo de biblioteca. As bibliotecas municipais estão em uma situação bastante precária, com dificuldade de renovação de acervos, algumas com acervos muito defasados. É importante notar que nestes últimos anos o Ministério da Cultura e a própria Biblioteca Nacional fizeram um esforço grande. O próprio governo fez um estudo pela FGV que mostra uma grande quantidade de bibliotecas com dificuldades. Em 2003, o IBGE mostrou que havia 1,2 mil cidades sem bibliotecas municipais.  Naquele ano, consegui aumentar cinco vezes o orçamento do ministério. Isto está próximo de ser zerado. Só não foi  zerado no final do ano porque algumas prefeituras insistem em não instalar a biblioteca, mesmo recebendo o kit gratuito.

Hélio – Há prefeituras que resistem em implantar bibliotecas?
Galeno – Não há compreensão por parte de alguns prefeitos. Felizmente esse número é cada vez menor. Hoje daria para contar as poucas dezenas. Tem gente que pode achar que livro é só para algumas pessoas, para dar cultura, para formar uma elite cultural. Mas, na verdade, o livro e a leitura têm um papel extraordinariamente importante, no sentido de preparar o indivíduo para a vida, para ser uma pessoa mais preparada, com mais condições de relacionamento com o seu semelhante. Com isto, passa a ser uma estratégia mais progressista, mais desenvolvida. Mas ainda há autoridades, lideranças no setor público, no setor privado e na própria sociedade, que têm dificuldade de compreender. Essas pessoas estão sendo atropeladas pela história.

Hélio – Existem 6 mil bibliotecas públicas no país, mas há bibliotecas que não ‘veem’ um livro novo há 5, 10 anos. Isso desestimula o leitor?
Galeno – Fiz um estudo chamado retratos da Leitura do Brasil, em 2008, que mostrava que apenas 1 em cada 10 habitantes do Brasil, frequenta biblioteca. Sobe um pouco se você considera aqueles que vão ocasionalmente, muito ocasionalmente. O que acontece, depois do período escolar, é que as pessoas acabam se distanciando da biblioteca pública e ela deixa de ser interessante e atrativa. A biblioteca moderna precisa na verdade funcionar como um centro gerador de cultura, ter teatro, ter cinema, ter palestra, ter curso de alfabetização de jovens e adultos, ter sarau, ter música. Há varias bibliotecas que funcionam assim, mas é uma minoria.

Hélio – Ribeirão é uma cidade que está acima da média em termos de leitura e acesso a bibliotecas, mas não possui uma biblioteca municipal. Por quê?
Galeno – Suas principais bibliotecas, tirando as bibliotecas universitárias, são bibliotecas mantidas pela sociedade, que perceberam a importância da leitura, mais que o poder público. Quando estive na secretaria, procurei desenvolver um projeto buscando transformar a Biblioteca Altino Arantes. Não precisava ser estatizada mas passaria a ser a grande biblioteca pública do município. A ideia era construir um anexo novo, moderno na parte de trás do prédio, preservando as características do prédio da frente, mas que pudesse cumprir papel. Acho que existe espaço em Ribeirão para isto. Acho que isso não vai demorar muito.

Hélio – O projeto está parado?
Galeno – À época, a fundação responsável se mostrou altamente interessada, chegou-se a fazer um projeto arquitetônico belíssimo, por um arquiteto chamado Marcos Cotrin mas faltaram as condições para que isso avançasse. O espaço continua aberto e para qualquer momento isso acontecer. Ribeirão merece e as forças da cidade podem fazer com que isso aconteça, num espaço curto de tempo.

Hélio – Ribeirão Preto é um retrato da situação das bibliotecas brasileiras?
Galeno – Entre 2001 e 2004 abrimos 80 bibliotecas. Aumentou o índice de leitura, de dois livros lidos por habitante/ano, para 9,7, o que acabou me credenciando e me levando para o  governo Lula na gestão do ex-ministro Gilberto Gil. Claro que, além das bibliotecas, a Feira do Livro e outros projetos acabaram elevando o índice. A cidade está muito à frente. Poderia dizer que está na vanguarda.

Hélio – Dentro do projeto Livro e Leitura, qual o próximo passo?
Galeno – Concluir as bibliotecas nos municípios é uma questão de honra. Vamos mandar uma força-tarefa para cada uma destas cidades. São detectadas 17 cidades que resistem bravamente a ideia de ter livro como serviço público.


João Garcia – Como você vê a internet na área do livro. Vai provocar uma grande revolução no mercado?
Galeno – O livro digital veio para ficar, o equipamento leitor vemse barateando e deve ter preços cada vez menores e ser cada vez mais acessível. Isso não significa a morte do livro em papel, mas sim a possibilidade de uma convivência harmoniosa e pacífica. O que importa mais é o conteúdo.
E mais importante do que isso é a apropriação dele, seja no livro papel, livro digital, audiolivro.

João Garcia – Porque você acha que o livro de papel vai continuar existindo?
Galeno – Há uma quantidade muito grande de não-leitores no Brasil que vão atravessar este hiato que existe hoje. Temos 77 milhões de pessoas que não têm acesso a nenhum tipo de livro, em papel ou suporte algum. Estss pessoas vão ser alfabetizadas ou realfabetizadas. A maior parte delas são pessoas que sabem ler e escrever, mas não tem a proximidade, porque não têmacesso, porque não têm estímulo. Ações vão fazer estas pessoas se aproximarem primeiramente do livro papel. Em um momento seguinte, é provável que muitas destas pessoas possam se tornar leitores de livros digitais.

Hélio – O custo distancia o livro da maioria? Não existe uma política de baratear os custo?
Galeno – Ao contrário do que muitas vezes pensamos, a grande questão não é o preço do livro, o preço do livro dificulta a leitura para uma parcela muito pequena, coisa aí entre 5% e 8%, o grande problema alegado é outro. É a falta de tempo, desinteresse e, sobretudo, a falta de habilidade. Existem pessoas que não conseguem ler um livro e estão longe dele. Uma parcela muito pequena não está lendo por conta do preço. Este problema afeta muito mais os 95 milhões de brasileiros que leem um livro a cada três meses. Mas mesmo assim há algo que precisa ser lembrado: não tem nenhum país do mundo que chegou a condição de país desenvolvido sem antes ter conseguido ter resolvido o problema do acesso ao livro gratuito. A grande maneira das pessoas terem acesso ao livro devem ser via biblioteca pública.

João Garcia – Você acha que a imprensa cobre bem o assunto livro?
Galeno – A imprensa na última década ampliou muito o destaque dado aos livros, mas ainda percebo que é em razão de eventos, de um lado, o Brasil passou a ter um circuito importante de eventos na área de literatura, mais feiras, jornadas de literaturas, prêmios importantes. Outra coisa é sobre o produto, nomes conhecidos lançando livros acabam virando pauta na imprensa. De certo modo isso é importante, e faz com que o tema ganhe mais espaço. Mas imagino que seria ainda mais importante se a imprensa abrisse um pouco mais de espaço e percebesse a questão da leitura. Se a gente mostrasse histórias de pessoas que mudaram de vida graças à leitura.

Hélio – As tiragens são cada vez menores, como reverter esta situação?
Galeno – Em média são dois mil exemplares. E isso tem um reflexo fortíssimo no preço do livro. Consegui coordenar a desoneração fiscal em 2004, quando o ministro Palocci estava na Fazenda e o preço do livro caiu menos de 10%. Muito pouco perto do que tinha que cair, mas muito mais do que a desoneração que varia entre 3,6% 3,7%. Então caiu dentro desta margem. A questão são as tiragens. Se você cria políticas que estimulam o livro que sai com 2 mil exemplares, sair com 10, 20 mil exemplares, na hora que você divide este produto pode ser vendido por um preço três,
quatro vezes menor.

Hélio – E por que isso não acontece?
Galeno – Porque não tem uma grande quantidade de leitores, que não compram muitos livros e se não tem muita gente que compra, o preço acaba sendo mais alto para justificar. Precisa de políticas que ataquem ao mesmo tempo as duas coisas. Tem que se criar rapidamente um tipo de programa governamental que, de um lado olhe para essas bibliotecas, estabeleça alguns livros que precisem abastecer essas bibliotecas, municipais, comunitárias, escolares, que o governo crie políticas para comprar por preços diferenciados e em troca disso estabeleça o livro popular. Que caiba na cesta da classe C e D, por exemplo.

João Garcia – Livro de bolso?
Galeno – Este é um caminho que estou estudando. Um livro de bolso que está muito próximo do tamanho convencional, mas que tenha um custo um pouco menor. Mas só isso não faria  com que o preço caísse muito. Você precisa ter políticas para que certa quantidade seja absorvida.