Gilberto de Abreu Sodré Carvalho é advogado e historiador. Depois de escrever livros de Direito Empresarial e Gestão,  de História Social e Genealogia, ele embarca agora numa nova aventura pelo caminho da escritura – agora o da literatura propriamente dita e lança Memorial do Ouro, um romance histórico denso, que será inicialmente lançado no Piauí, dia 23 de maio, a partir das 19:30horas, na Livraria Entrelivros. Gilberto de Abreu Sodré conversou com o Portal Entretextos.

1.Depois de experiências com a linguagem em outros campos do conhecimento, agora você embarca no campo da ficção. Como e por que escolheu esse novo percurso?

Sou alguém em busca permanente de entender o mundo e a vida humana, social e individual. Em dado momento não mais me satisfiz em pesquisar novos aspectos da Gestão ou do Direito.Isso coincidiu com meus estudos e leituras de genealogia sobre meus antepassados; bem como coincidiu com as pesquisas que fiz para escrever “Brasil um Retrato”, um longo ensaio sobre a história políticado nosso país, a começar de Portugal.

Nesse movimento, cheguei ao começo do Setecentos, em Portugal e no Brasil. É o tempo do surgimento do ouro, em abundância indescritível,  no Brasil central e o das atividades de apoio como o gado no Piauí. Estava ali, nas minhas mãos, um argumento ou enredo forte que me daria prazer intelectual para investigar e reconstruir. Ali havia o surgimento do ouro que fez o rei de Portugal um soberano riquíssimo, havia o Santo Ofício da Inquisição que foi usado pelo rei para a imposição da obediência a si, havia os cristãos-novos que representavam a economia do açúcar sendo substituída pela economia do ouro; com o que o soberano não se precisa da agricultura e da indústria para ser rico, mediante impostos. Com o ouro, o rei d. João V não precisa desenvolver economicamente Portugal e, menos ainda, o Brasil. O ouro compra o que se quiser.  

 

2.Você escolheu como gênero de ficção para a narrativa de Memorial do Ouro o romance histórico. Por que exatamente a escolha por esse gênero?

Penso, Dílson, que os fatos históricos, e as tramas entre eles, são tão ou mais fantásticos que aqueles criados pela simples imaginação ou extraídos do convívio comum. Além disso, têm a vantagem de já apresentarem personagens já engendrados, que se predispõem a receber personalidadesconvincentes, desenvolvidas pelo autor.

O gênero do romance histórico é um achado para mim, uma vez que eu o desenvolvo para além da emulação do romantismo. Lembro, Dílson, que o período fértil desse gênero, nas suas origens, foi o período romântico, com Alexandre Dumas e Walter Scott; ainda que Maurice Druon, com a série “Os Reis Malditos”, seja do século XX.

A matriz do romance histórico me proporcionou desdobramentos de criação que eu não alcançaria se intentasse um romance de ficção comum.  

3.O leitor  alento vai perceber de imediato, já no primeiro capítulo, que Memorial do ouro, cujas ações transcorrem entre 1680 e 1740, ao reconstruir  os mais diversos mecanismos de controle de Portugal sobre o Brasil, revela um viés ensaístico. Como você vê esse diálogo entre narrativa literária e ensaio no romance histórico, sobretudo em Memorial do Ouro?

A aparência de ensaio pode surgir, para você, por conta da narrativa ser feita por um personagem cheio de opiniões, ideias e de sofrimento. Ele é, pode ser, o protagonista da obra. Não há, para mim, um ensaio, mas a permanente condução da narração, por um narrador cheio de razões e aversões, de ideias e críticas. Creio que eu possa estar sugerindo uma nova estrutura de romance histórico, pós-romantismo e pós-realismo, em que o contador opina e tem escolhas, como que a mostrar que as versões na História, com letra maiúscula, existem, e que não há uma “versão única” que seja a verdade.

4. Um dos núcleos dramáticos de Memorial do Ouro é a Inquisição no Brasil. Você já publicou estudo historiográfico sobre o assunto. Quem leu sua pesquisa na área percebe o claro intertexto entre sua pesquisa historiográfica e Memorial do Ouro. Qual, a propósito, o lugar dessa pesquisa, digo, as influências que ela exerceu na escritura literária? Há um pedaço de suasmemórias genealógicas e de sua família neste livro, certo?

Dílson, “Memorial do Ouro” é obra que deriva do meu livro de pesquisa histórico-genealógica “A Inquisição no Rio de Janeiro no Começo do Século XVIII”, pela Editora Imago, de 2008. No entanto, esse livro significa apenas uma parcela do que me servi para compor o “Memorial do Ouro”. Os personagens do “Memorial do Ouro” estão em “A Inquisição no Rio de Janeiro”. Ocorreu de eu me valer, como já disse, de fatos históricos, ou seja, verdadeiros, que envolveram meus antepassados, por minha mãe, para a história básica de o “Memorial do Ouro”.  

5. A conquista do Brasil, a relação entre religião e Estado, a hipocrisia da nobreza, a inquisição são temas explorados nesta obra. Você acredita na atualidade desses temas, de modo que interessem os leitores de nosso tempo?

Penso, Dílson, que o tratado em o “Memorial do Ouro” é de enorme atualidade para o Brasil atual e para os brasileiros. A fase do ouro, entre 1680 e 1780, tem muito a ver com uma possível e futura fase do petróleo. Ou seja, a abundância de um recurso natural faz com que um povo se apequene e tenha governantes para além de poderosos. Observo que o petróleo, em si, não traz desenvolvimento, mas oportunidade a ser estrategicamente ponderada. 

6. O núcleo central da obra é construído a partir de um narrador que exerce, além da narração em si, uma função metalinguística,que dá ao texto uma orientação  ensaística.  Eu queria que o senhor falasse um pouco sobre esse narrador e sobre essa função...

Como já disse, o narrador é um personagem que pode ser tido como o protagonista, se assim se quiser concluir. A função do narrador-personagem em um romance histórico pós-romantismo e pós-realismo está em mostrar a total tendenciosidade de qualquer cronista. Ou seja, o narrador é tão “gente” como o são os personagens típicos que ele cria em sua narrativa.

Creio que essa técnica ajuda a que o leitor entre na história e creia nela. O narrador não é uma “lente” ou uma “janela” para o leitor. Ele é um intermediário ou terceiro que orienta tudo.

7. De saída, o narrador adverte o leitor de que a obra vai tratar de um reino de “dúvidas, medo e fingimento”. Que reino é esse? 

Esse é o reino em que todos vivemos. Todos nós, nas nossas mentes, nos nossos pensamentos, somos cruéis, preconceituosos. Ao agirmos, somos, por muitas vezes, dissimulados. Nós nos editamos como pessoas aceitáveis, todo o tempo, fazendo maior ou menor força para tanto. Queremos ser vistos como bons, centrados, leais e merecedores; mas só nós sabemos da nossa verdade. Muitas vezes, nem nós mesmossabemos da nosso verdade, tal a mistura que fazemos entre o que cremos e o que cremos para constar para os outros.

 

8. O Brasil e Portugal, também a Inglaterra(O Rio de Janeiro, o Piauí, Minas, Porto, Lisboa e Londres, por exemplo) aparecem detalhadamentedescritos em Memorial do Ouro. Em algumas passagens essas descrições, inclusive, tornam a leitura mais densa e atraente. Essas descrições interessam mais à narrativa em si ou às discussões subjacentes, ou a ambas em igual importância? O que o leitor vai descobrir sobre esse Brasil e sobre esse Portugal aí descritos?

As descrições servem para trazer fidedignidade à ação e autoridade para o narrador-personagem. Li muitos livros de história portuguesa e brasileira do período, bem como sobremoda, hábitos, culinária, religiosidade, regras de precedência na Corte. Pesquisei ainda em livros da história social inglesa e francesa do mesmo tempo.

As minhas descrições das cidades são sustentadas em dados fidedignos quanto à autoridade da fonte.

9. A família tem um sentido especial em Memorial do Ouro. Ela é espaço para muita coisa, inclusive para a reprodução do próprio Estado. Queria que o senhor se delongasse sobre a família, a partir das ações que vive a família do fidalgo dono de engenhos João de Aveleda, o protagonista da obra.

O importante quanto à família é ver a intensa endogamia entre as famílias dos personagens. Isso levou a fixação de comportamentos e de crenças. No entanto, por horroroso que seja, também significou o esfacelamento dos laços de parentesco por conta da ação da Inquisição, que punha um contra o outro, mediante tormentos e toda tortura psicológica.São comuns as denúncias de heresia entre irmãos, e contra pai, mãe, tio, tia, primos. 

 

10. A história da vida privada do Rei D. João é um dos núcleos da obra. Em que essa história contribui para a trama central de Memorial do Ouro?

Contribui para mostrar que o rei João V é o dono do ouro, é o principal interessado na sua dominação sobre os seus povos. A Santa Inquisição é um instrumento de submissão ao rei, em Portugal e todos seus domínios.

 

11. A liberdade e a opressão aparecem tematizadas, figurativamente,ao longo de toda a obra, não apenas nos capítulos em que se desenrolam as perseguições aos personagem que são cristãos-novos eque tem sua identidade arrancada pela convenções do Estado Português ou de seus representantes religiosos; não apenas nesses capítulos, mas também em toda e qualquer referência ao Brasil. O que isso significa na trama?

A liberdade desejada pelas pessoas é impedida pela dominação do rei ou dos governantes. Isso é ainda o padrão, mesmo hoje, em muitos países de democracia hierárquica, nos quais os governantes fazem as escolhas e decidem em nome do povo. Os reis ditos absolutistas eram assim. Hoje temos ainda arremedos disso. O governo é a cabeça e o povo é o corpo que se move se conformidade com a cabeça. Observo que essa noção medieval,ou eclesial, é ainda vista como devendo ser cumprida, inclusive no Brasil.

 

12. Personagens femininas como Catarina e Clara (esta de “alma rebelde, alguém diferente” p.93)  fogem ao estereótipo de mulher que se conhecia então no século 18. O que o senhor espera que essas personagens sejam capazes de despertar nos leitores, sobretudo clara, quanto ao comportamento diante dos inquisidores?

Essas duas mulheres são cristãs-novas (capazes de ler e escrever, fazer contas). Diferem do grosso das mulheres portuguesas de então.  Elas despertam a ideia mais profunda de liberdade, algo só possível às mulheres lúcidas; mais que aos homens. Os homens tendem a ser atrelados à obediência e ao mando. Os homens tendem a ter mais medo, são mais ponderados. Penso isso. 

 

12. Romances históricos demandam pesquisa sobre hábitos e linguagem. Os leitores perceberão que o senhor fez rigorosa pesquisa para construir tanto a ambientação da narrativa quanto o perfil dos personagens e principalmente a linguagem. Quais foram suas fontes? Quais cuidados adotou?

Vali-me para credenciar o uso por mim de palavras que pudessem ser usadas no ano de 1740, quando a narrativa do livro termina, do “Vocabulário Português e Latino do padre Rafael Bluteau”, publicado em Portugal na década de 1730 e da História da América Portuguesa de Sebastião da Rocha Pita. Usei também o HOUAISS quanto ao início do uso de certas palavras.

 

13. O título Memorial do ouro, além de metalinguístico, é título metafórico. O que representa o ouro, de fato, já que ele não é diretamente o foco centraldo romance?

O título remete ao ouro como o que é buscado pelo rei d. João V e explica a preocupação do monarca com abertura segura do porto do Rio de Janeiro para o escoamento do ouro e a chegada de escravos africanos. O ouro representa uma total mudança na fortuna do rei de Portugal; de soberano de país pobre com uma colônia atrelada ao açúcar para um rei riquíssimo que não precisa de um povo inteligente, operoso e produtivo na agricultura e indústria, mas sim de um povo obediente que não lhe dê trabalho.