A professora Lucilene Gomes Lima acabou de lançar o livro Ficções do Ciclo da Borracha no Amazonas, um estudo comparativo entre os romances A Selva, de Ferreira de Castro, Beiradão, de Álvaro Maia e O Amante das Amazonas, de Rogel Samuel. É sobre esse seu trabalho que ela nos fala agora.

Revista Literária – O que levou você a fazer esse estudo entre os romances A Selva, Beiradão e O Amante das Amazonas?

Lucilene Gomes Lima: Esses livros representam três momentos ou fases de uma produção quantitativamente expressiva sobre o ciclo. A Selva foi publicada em 1930 pelo autor, português, Ferreira de Castro. Elaborando ficcionalmente a experiência vivida num seringal amazônico, não se pode dizer que o autor dialogou com a produção anterior, de autores como Euclides da Cunha, Alberto Rangel, especialmente porque o contexto de produção em que estava inserido era o neo-realismo português. A Selva é a percepção de um autor europeu sobre a Amazônia, filtrada a partir de uma experiência de vida. O romance Beiradão, por sua vez, foi publicado em 1958, quando já estava publicada uma dezena de obras sobre o tema. A possibilidade de que Álvaro Maia tenha dialogado com essas obras não deve ser descartada, mas a mudança de enfoque na abordagem do papel do seringalista, quebrando o anátema da figura vilanesca tão ao gosto de autores que o precederam (Ramayana de Chevalier, Francisco Galvão) ocorreu mais seguramente pela percepção política e biográfica (o autor era filho de seringalista), o que o pôs no papel de redentor deste agente social, enquanto ser inescrupuloso, rude e sem visão. Portanto, a renovação empreendida por Álvaro Maia tem caráter político-ideológico superior ao caráter de diálogo e remodelação da estrutura narrativa e temática sobre o ciclo. O Amante das Amazonas, terceiro romance selecionado, publicado em 1992, é uma narrativa ficcional que acumula um diálogo com as obras posteriores. A própria mudança de direção quanto aos clichês e ao esquematismo dos aspectos em torno do ciclo já evidencia isso. Mas ainda que essa obra apresente uma mudança de ângulo na abordagem e na estrutura, guarda um ponto em comum com as outras duas – o papel da memória como propulsora da narrativa. O autor de O Amante das Amazonas, Rogel Samuel, é neto de Maurice Samuel, rico comerciante da borracha no século XIX. As memórias dessa era são, portanto, um legado familiar. O dado da experiência vivida ou revivida pela memória, direta ou indiretamente, comum aos três autores, e as abordagens que propiciaram mudanças no filão ficcional sobre o ciclo instigaram e promoveram a realização do estudo.  

 

RL – Existem vários outros livros sobre o ciclo da borracha no Amazonas. Por que escolheu exatamente esses três?

LGL: O estudo que eu realizei abrange a produção ficcional sobre o ciclo da borracha, por isso, outras obras também são estudadas além das três mencionadas. A seleção dos três romances deu-se após a leitura extensiva das obras ficcionais sobre o tema. Após essa leitura é que surgiu a hipótese de que a produção ficcional sobre o ciclo não apresenta reformulação em seu enfoque. No entanto, nos romances A Selva, Beiradão e O Amante das Amazonas, o tema do ciclo recebeu um tratamento diversificado das demais obras, seja pelo aprofundamento e abrangência da abordagem, seja pelo rompimento de certos lugares comuns que criaram um filão em torno da repetição dos mesmos aspectos, seja ainda pela elaboração criativa, reformulando as estruturas ficcionais já desgastadas.

 

RL – A que conclusões chegou após o estudo?

LGL: A principal conclusão é que o processo de aprofundamento do tema e diversificação das abordagens ficcionais não está condicionado necessariamente ao tempo em que as obras foram publicadas. A pesar de eu ter feito um recorte temporal de estudo, ao selecionar A Selva, Beiradão e O Amante das Amazonas, já que as data de publicação situam-se precisamente em décadas representativas  do início, meados e final do século XX,  penso que isso não ocorreu como forma de comprovar que as obras evoluíram no decorrer do tempo. Apenas coincidentemente as obras em que verifiquei e apontei um trabalho mais aprofundado e criativo em relação ao tema encontram-se situadas numa cronologia ascendente. A produção ficcional sobre o ciclo poderá ter muitas abordagens futuras, rompendo ou não com os clichês em torno do tema. O verdadeiro fator que contribui para a diversificação é a percepção aguda e criativa do autor.

 

RL – Como definiria a visão de cada autor sobre o ciclo da borracha?

LGL: A seleção das três obras pelo critério da diversificação ficcional sobre o tema também contemplou três visões distintas dos autores.  As visões de Ferreira de Castro e de Álvaro Maia nos revelam não apenas a forma como trataram o tema do “ciclo da borracha”, mas também suas percepções sobre o lugar Amazônia. Ferreira de Castro logrou ser o autor que melhor soube elaborar, organizar e apresentar, didaticamente, o tema. Talvez porque seu conhecimento sobre a exploração foi resultante de sua própria experiência num seringal, a qual sua sensibilidade soube captar e encadear criticamente em forma de narrativa literária. Por outro lado, a percepção desse autor sobre a Amazônia ainda se manifesta dentro de uma concepção etnocêntrica, com todas as antigas dicotomias paraíso/inferno; civilização/selvageria que eram a tônica nos discursos de cronistas, cientistas e ficcionistas europeus. Álvaro Maia, autor nativo, não apresenta em sua obra os sobressaltos espantos que caracterizam a percepção do autor português. Sua naturalidade nesse meio está bem exposta na clássica foto em que aparece em uma canoa, remando, integrado a natureza e aos costumes de seu lugar. No entanto, como a evidenciar que o discurso etnocêntrico deixou profundas marcas no ser nativo, em Beiradão o autor, por intermédio de seu representante ficcional, o narrador, atribui as vicissitudes e as perversões no processo de desbravamento e exploração do meio amazônico às características de sua natureza selvagem e não aos agentes sociais que empreenderam esse processo. Ademais, é o engajamento político de Álvaro Maia com o Estado Novo que norteia a mudança de percepção sobre o papel do seringalista como um agente negativo no processo econômico de exploração da borracha. Sua visão redentorista desse agente revela uma política conciliatória entre patrão e empregado, omitindo os conflitos. Rogel Samuel, professor, analista literário promove uma diversificação no tratamento do tema a partir de suas concepções teórico-literárias, que podem ser percebidas em seu livro Crítica da Escrita. Daí o aspecto não linear da narrativa de O Amante das Amazonas, consoante a ficção moderna, o destaque dado não ao enredo, mas às personagens, a intertextualidade e o caráter metalingüístico do texto. O texto, ainda, não negligencia a abordagem de aspectos da colonização, tão bem representados em personagens como Maria Caxinauá, nas oposições entre as tribos dos numa e dos caxinauá, na própria dimensão mais ampliada das razões econômicas do ciclo, parte do contexto desta colonização.

 

RL – Fale um pouco sobre os dois livros que você já tem, escritos, e o próximo, em processo de criação.

LGL: Escrevi um livro de contos intitulado O Mestre e o Discípulo, que foi publicado em 2000 pela editora da Universidade Federal do Amazonas. Posteriormente, em 2002, fiz uma publicação independente de outro livro de contos, O Julgamento. Atualmente estou escrevendo um livro sobre as representações discursivas do feminino na publicidade brasileira, contemplando a área de linguagem de minha formação em Letras.

 

- Ficções do Ciclo da Borracha no Amazonas, de Lucilene Gomes Lima

            Solicitações: lucileneglima@bol.com.br

Entrevista realizada pela Revista Literária, editada online por Evaldo Ferreira