Um roteiro seguro para estudar as competências e habilidades requeridas no Enem. Essa é a finalidade de Linguagens & linguagem verbal, de Teresinha Ferreira, mestre em Linguística Textual e professora de Língua Portuguesa da rede privada de ensino em Teresina e da Universidade Estadual do Piauí.

Sucesso de vendas já nos primeiros meses de lançamento, o livro, resultado de décadas de experiência docente, agrupa tópicos essenciais de linguagem e mais de 1000 questões. Um dos diferenciais do livro é o comentário de cada uma das questões que integram a lista de exercícios. Um livro para constar na lista de quem verdadeiramente se foca no Enem.

Entretextos conversou com a professora em busca de compreender a essência do sucesso da publicação.

Entretextos - Examinando atentamente Linguagens & linguagem verbal, observa-se que o livro não se resume a catalogar e explicar competências e habilidades requeridas no Enem. Também, que não se fundamenta em empirismo. Qual caminho a senhora percorreu para que o livro chegasse ao caminho de se tornar um roteiro claro para estudar os objetos linguísticos requeridos pelo Enem?

O projeto surgiu da necessidade, enquanto professora do Ensino médio, de conhecer mais aprofundadamente o Enem, para escolher as estratégias metodológicas mais adequadas para a orientação dos alunos. Foi um trabalho advindo da prática de sala de aula.

Sempre vi a angústia dos estudantes acerca da prova de linguagens porque eles não sabiam em que se fundamentar especificamente para enfrentar essa prova, eles diziam que não precisava estudar porque era “só” interpretação de texto. Também, como professora  ficava angustiada e assim, comecei a fazer um estudo das competências e das habilidades  com vistas a encaixar os conteúdos da Língua e das linguagens.   

Entretextos - Apesar de o projeto do Enem ter-se consolidado, equivocadamente, muitos vendem a ideia de que a prova de linguagens no Enem é uma prova apenas de interpretação e, pior do que isso,  de que, nela, não consta gramática. O livro da senhora contribui para desfazer esse equívoco?

Um dos objetivos foi exatamente este, mostrar que  a gramática é a  “raiz” que sustenta boa parte da compreensão. Parto exatamente da gramática para analisar os demais conteúdos como leitura, no sentido amplo, variedades linguísticas, polissemia etc, tudo isso podemos reconhecer e compreender se tivermos um conhecimento mais refinado sobre gramática, se conhecermos o menu que a língua nos fornece. Porém, a visão de gramática não é aquela estereotipada do certo e do  errado, procuro mostrar a norma culta da língua (variedade padrão) e as variedades que não estão inscritas na variedade padrão, na língua, ou seja, as variedades decorrentes de fatores extralinguísticos e, assim, podemos levantar hipóteses sobre determinado uso da língua.

É fato que somente o conhecimento gramatical não abarca toda a compreensão, portanto,  foi necessário ampliar com recursos teóricos de outras disciplinas dos estudos da linguagem, como a Análise do Discurso, a Linguística textual, a Pragmática etc.

Entretextos - De que maneira é possível desfazer esse equívoco?

Escolhi uma trajetória que permitisse uma visão geral das linguagens (toda a forma de interação  do homem em sociedade, sua marca enquanto ser inserido numa teia social, o seu “querer-dizer”, usando  as palavras de Bakhtin) e, posteriormente, trabalhei a linguagem verbal (a língua – os “códigos” )  e situei os conteúdos partindo exatamente das “partes da gramática”, o livro está organizado dessa forma. Para cada parte da gramática, explico qual o objeto de estudo, suas funções textual-discursivas e como prever a variedade da língua. Por exemplo, na Morfologia, inicio com os dois objetos de estudo – o morfema e o vocábulo formal; vemos a importância de cada uma das classes gramaticais, a referenciação (a nomeação das coisas de acordo com  as intenções comunicativas), que classe funciona como elemento coesivo, vemos as escolhas  que se podem fazer para atingir determinado objetivo e  a partir dessas escolha, vemos as variedades lingüísticas que se concretizam nessa parte, como por exemplo, o uso de uma palavra que identifica o falante, seu nível cultural, sua idade, sua origem (Assim, cirurgia x operação/ arrocha/guri, menino, piá, moleque etc).Como já disse, foi o caminho que encontrei para caminharmos mais firmes.

Entretextos - O que estudar em linguagens e como estudar para se “sair bem” no Enem?

É preciso  conhecer a teoria, analisar bem os recursos empregados em dado texto. Estudar mesmo essa teoria, para então, partir para a prática. Não adianta achar que é possível se sair bem sem saber o conteúdo, só no achismo, adivinhando. Como dividi as questões do Enem pela competência, percebem-se as características da prova mais facilmente, reconhecemos os distratores (aquela questão que parece mas não é), descartamos os  absurdos.

Entretextos  - A senhora teve a cautela de se servir de conhecimentos de diversas áreas dos estudos linguísticos, a fim de focalizar a língua numa perspectiva sociointeracional e discursiva. O aluno será capaz de perceber isso a partir de que aspectos no livro?

Como ministro aula no Ensino Superior, percebi que muitas disciplinas do Curso Superior, de Letras, no caso, eram necessárias também ao aluno do Ensino Médio, como por exemplo, a Análise do discurso, a Linguística de Texto, A Semântica, a Sociolinguística, etc, então fui inserindo de forma leve, adaptando os conteúdos para o nível dos alunos do ensino médio. Isso permitiu olharmos não exclusivamente para a gramática, mas para o entorno em que um determinado discurso (texto) foi proferido e, assim,  captar-lhes as intenções, os objetivos ou propósitos comunicacionais.

Entretextos - Outro aspecto valorizado pela senhora foi o de criar condições para a reflexão tanto sobre a regra quanto sobre uso da língua, com ênfase a esta sobre àquela. Esse é o fator mais essencial de seu livro?

Perfeitamente, esse aspecto todos os estudantes de Letras sabem, conhecem  as abordagens dos estudos linguísticos e  sabem que a abordagem mais adequada é a que concebe a língua como interação, mas muitos, depois de formados esquecem e passam a fazer exatamente aquilo que condenavam no curso, a dar continuidade à abordagem da língua como mero “instrumento de comunicação”, um sistema fechado, a assim,  reproduzem o velho discurso da metalinguagem. Isso fecha a possibilidade de leituras efetivas.

Entretextos - Linguagens & linguagem verbal segue um rumo diferente da tradição ainda vigente? O que há de diferente na sua proposta em relação ao que tradicionalmente se tem visto?

Sim. Acredito que, assim como eu,muitos professores e estudiosos estão procurando uma melhor forma de lidar com as linguagens. Considero que o diferencial é exatamente a adoção de disciplinas complementares, sem paixões por esta ou aquela, sem privilegiar somente  a gramática ou discriminá-la; procurei mostrar que a “linguagem é o homem e o homem é a sua linguagem”, que não existe homem sem linguagem, assim despertamos o aluno para o que há de mais importante que é a compreensão dessa linguagem, que é a própria vida.

Entretextos - Considerando o que a senhora se propõe em seu livro, quais mudanças a senhora julga urgentes no currículo de Língua Portuguesa para que ele espelhe o perfil de prova que se verifica hoje no Enem?

Temos de um lado o Enem, com uma proposta centrada na reflexão, no fazer, no uso, na dinâmica da vida, no aprender a ser,  e de outro os currículos amorfos do Ensino Médio. Um currículo antigo, que privilegia o conteúdo, a repetição. Isso não pode dar certo. Já passamos do tempo de nos conformar e continuar fazendo de conta que o currículo atende às expectativas do Exame. A Finlândia, que está sempre entre as cinco nações com excelência em educação, está neste ano fazendo mais uma reforma no seu currículo. Urge que se apresente mudança e que se persiga a qualidade no ensino.

Entretextos - Muitos professores de Português no Ensino Médio ainda estão perdidos sem saber verdadeiramente o que ensinar para o Enem. Como seu livro pode servir a esses professores?

Não sei se pode servir, mas acho que pode despertar no professor  a vontade de que também  encare o desafio e busque maneiras de  melhorar o desempenho dos seus alunos e isso será muito importante.

Entretextos - Qual exatamente o lugar da leitura em Linguagens & Linguagem Verbal?

A leitura permeia todas as atividades humanas em sociedade, falo da leitura num aspecto cognitivo, da compreensão, do “ato responsivo”, de compreender os fenômenos sociais, de entender fatos, enfim. O exame quer saber se o estudante compreende esse mundo em que vive e é capaz de intervir a partir do que experienciou na escola. Por isso, o Enem é um exame para a vida.

Entretextos - A senhora organizou vasta lista de exercícios que complementam os objetos do discurso tematizados no livro. Quais critérios a senhora adotou na seleção dessas questões?

Privilegiei questões que mantivessem um diálogo entre as diversas linguagens, que visassem à compreensão de textos e promovessem a reflexão do aluno acerca dos discursos. Fiz uma coleta dos vestibulares nacionais que  apresentam  essa característica, que não adotem apenas a metalinguagem.