RF: Comparando o fantástico do Ex-mágico da taberna minhota, de Murilo Rubião com os absurdos e invenções da fala infantil de João em Poeminhas pescados numa fala de João, de Manoel de Barros, como se explica o método de ilustrar para Ana Raquel, uma vez que no primeiro livro, a artista usa outros recursos além do pincel, tais como a colagem de fotografia (outro código de linguagem) e na segunda obra ela joga com as próprias ferramentas da ilustração?

 

AR: O método de ilustrar para mim não tem método; sempre foi pescado nas falas do texto. Depende de como ele é lido pela minha ‘aparelhagem de ler o que não está escrito’, ou seja, pelo meu leitor de imagens escondidas. Só depois dessa leitura, escolho as ‘ armas’ ou as ferramentas disponíveis, que são muitas.

RF: Observei que um traço sui generis da artista Ana Raquel é a preferência pela cor azul que nunca se repete de um livro para outro, como A volta ao mundo em trinta dias, de Júlio Verne, O ex-mágico da taberna minhota, inclusive, emPoeminhas pescados numa fala de João, entre outros. Como é possível tal multiplicidade numa única cor?

AR: Isso eu mesma não tinha percebido: o quanto uso o azul nas minhas ilustrações. Sei que não gosto de me repetir, e acho que por isso, quando elejo uma cor saio esmiuçando cada pixel pra fisgar momentos diferentes de azuis. Claro que era assim quando fazia aquarela no papel, misturando pigmentos. Mas no ‘fotoxópi’ a gente vai muito além, nesses detalhes.

RF: Li uma definição de ilustração de Ana Raquel, citada por Ieda Oliveira, em que a artista diz: “Ilustrar requer abstração, desafio, observação... Poesia quase sempre é uma dose bem servida de preconceito contra o óbvio” (Ana Raquel). Muitos ilustradores preferem ilustrar narrativas curtas a poemas. Qual seria a problemática da ilustração do texto poético para Ana Raquel?

AR: Citando o grande Dario peito de aço: não é problemática, poesia é solucionática! Para mim, ilustrar poesia é um momento mágico! A poesia me solta as asas e saio voando feliz pelas entrelinhas, pinto e bordo sem ter que pisar no chão. Ilustrar poesia, para mim, também requer uma dose de comedimento e desapego, talvez. É que se a gente explica demais a voz do poeta, retrata ela tintin por tintin, degustando com gula, fica com tudo pra gente e pode cortar as asas do leitor ...

RF: Nas duas páginas iniciais de Poeminhas pescados numa fala de João, Ana Raquel utilizou outros elementos que não estão na obra em questão, mas remetem a outras obras de Manoel de Barros, tais como a presença do besouro deGramática expositiva do chão, pedaços ou trechos de Compêndio para uso de pássaros. Teoricamente, em literatura, tais recursos seriam intertextualidades ou intratextualidades. No caso da ilustração, como entenderíamos esse diálogo? É necessário conhecer toda a obra de um autor, em termos de linguagem, para se realizar o trabalho de ilustração?

AR: Sempre usei elementos extratexto para criar o clima que preciso nas minhas ilustrações. Sempre usei linguagens paralelas, alegorias, materiais diversos que possam ‘conversar’ com o texto, esse diálogo é fundamental, seja o texto poético ou não. No caso do ‘Poeminhas..’, não pensei deliberadamente em “ Gramática expositiva do Chão”, quando ilustrei. Usei o besouro porque faz parte do imaginário geral da obra do autor (e aprendi isso em ‘Gramática Expositiva’,) mas usaria de qualquer jeito, se nunca tivesse lido outras obras de Manoel, porque isso faz parte da minha maneira de trabalhar: buscar elementos alegóricos que ajudem a dar luz ao texto, para que o leitor não leia apenas com meus olhos e possa interpretar como quiser.

RF: Como dito na pergunta de número 1, em O Ex-mágico da taberna minhota, de Murilo Rubião, o leitor ou observador de imagens precisa operar a mágica do olhar para desvendar em quais partes do texto são colagens e em quais são ilustrações. Tratando-se de Poeminhas pescados numa fala de João, Ana Raquel joga com o fundo de papel rasgado (repetição de Compêndio para uso de pássaros?) numa janela, cujo lápis (ferramenta do ilustrador) faz parte da imagem na janela (p. 7) e na página seguinte, o lápis é misturado ao brinquedo.  A impressão que se tem é que o recurso também foi colagem ou desenhos extras, uma vez que, ao final da obra, depois da desexplicação de Manoel de Barros, Ana Raquel fala de imagens emprestadas do pai. Como ocorreu isso?

AR: Usei em todas as ilustrações, como quase sempre faço, imagens desenhadas misturadas com imagens escaneadas de coisas que iam pro lixo e eu capturei. Em “Gramática” o autor da capa usou uma foto de chão seco e quebrado, ilustrando a palavra chão, e se eu tivesse que ilustrar o ‘chão’ do Manoel, provavelmente usaria uma alegoria mais fértil e não um chão seco.

Aqui usei papel amarrotado porque o imaginário de Manoel é cheio de restos de coisas que a gente ‘joga fora, pisa e mija em cima” (desculpem, não me lembro se estas  seriam exatamente as palavras dele no poema). O universo ‘manoélico’ é cheio de objetos despercebidos, lesmas com sua lerdeza morando debaixo de pedras, sapos, pregos enferrujados pedaços de coisas e lixo,  que parece que só ele observa e dá vida.

Daí eu ter usado lápis velhos, papel amarrotado, broche velho, embalagem de pizza, todos elementos desimportantes que ganham vida ao se travestir de outro objeto.

As vinhetas em preto e branco são desenhos que meu pai, que nunca tinha desenhado e já estava bem idoso fez por insistência minha, que vi no universo do Manoel, os cenários que meu pai descrevia de sua infância. Ele não viu o livro pronto. Virou uma estrela antes...

RF: No mesmo texto final para Poeminhas pescados numa fala de João, a autora disse que ficou “apavorada e absurdada” ao ter que criar a ilustração para este livro de Manoel de Barros. Qual foi o motivo de assombro se ambos são assombrosos em matéria de absurdos e encantamentos com palavras e imagens? 

AR: Bem, eu não tive que ilustrar. Fui eu que escrevi para o Manoel depois de muito hesitar, pedindo para ele autorização para ilustrar o Poeminhas. Eu já era apaixonada pela sua obra e acabava de ler uma matéria sobre ele no jornal, onde ele dizia que escrever poesia pra ele é o mesmo que pintar...

O assombro foi coisa de tiete. Ele, meu poeta preferido e genial, me telefonou pessoalmente logo que recebeu minha carta, escrita a mão e pelo correio, topando e achando a ideia linda. Quase derreti de surpresa e aflição. Muita responsa para mim.  

E quando vi que ele topou mesmo, caiu a ficha, era um trabalho tão especial pra mim, que quase corri da raia! Mas fui vencendo a tietice e trabalhei em paz. Foi difícil convencer a editora na época, eles achavam que Manoel seria inilustrável, que o texto poderia ficar infantilizado, etc...Tive que fazer 2 ilustras e ir ao Rio pessoalmente levar para que a editoria da Record na época resolvesse acreditar. Um ano e meio de processo até que o livro enfim saísse.

RF: Li uma entrevista de Ana Raquel sobre a Feira do Livro, divulgada no Jornal do Comércio (2010). Transcrevo a sua fala ipsis litteris para depois ir à pergunta: “O texto e a ilustração não podem dizer a mesma coisa. Se o texto diz o menino de sapato amarelo você não pode desenhar um menino de sapato amarelo. É preciso explorar os elementos de outra maneira, fazer uma página bem marcada por essa cor, por exemplo. A ilustração deve trazer coisas que o texto não traz para aumentar a viagem do leitor” (Ana Raquel). Tratando-se desse “distanciamento” do texto, não haveria problema de a transgressão estar tão distante da palavra narrada ou poetizada, tornando a ilustração uma decoração e desnecessária ao texto? Comente.

AR: Eu não estou dizendo que a ilustração NÃO PODE dizer o mesmo que o texto. Eu digo que ela não DEVE EXPLICAR o texto ou se ater apenas nas palavras que o texto diz. É muito diferente.

É claro que se corre o risco de distanciar! E não é por um passe de mágica também que a gente aprende a dosar essas coisas. É para isso que, quando o ilustrador é inexperiente ou desatento, existe um bom editor de arte, que vai dar os toques e direcionar melhor as saídas da imagem...

É claro que para não repetir o que o texto diz você não vai inventar outra história que não tenha a ver com o texto.

Não chamo isso de distanciamento do texto. Pelo contrário. A gente apenas dá voltas imagéticas pra chegar nele, usando para isso imagens correlatas que possam puxar a imaginação do leitor a alargar o universo do tal menino de sapato amarelo.

Acho que hoje, depois de 33 anos de trabalho eu não corro mais esse risco...Ou não tenho mais o direito de fazer essas heresias. Mas no começo muitas vezes fui salva de besteiras desse tipo por um bom editor.

 

8)

RF: Em Para ler o livro ilustrado (2011), a francesa Sophia Van Der Linden mostra-nos a diferença entre livro ilustrado e livro com ilustração. Ela diz que tal confusão é comum no Brasil e dá a seguinte explicação: “Livros com ilustração são aqueles de maior autonomia artística, o texto é predominante e autônomo do ponto de vista do sentido. O leitor penetra na história por meio do texto”. Os “livros ilustrados são interdependentes e as imagens são preponderantes em relação ao texto”, esclarece Linden (2011, p. 24-32). Para Rui de Oliveira, na obra Pelos Jardins Boboli: a arte de ilustrar livros para crianças e jovens, “a ilustração pode assumir um caráter de transcendência do texto, o que não significa transgressão” (OLIVEIRA, 2008). O que Ana Raquel, como ilustradora, pode nos dizer a respeito dessas posições de Linden e Oliveira?

 

AR: Eu não faço absolutamente essa divisão. Para mim se o livro tem texto e ilustração, tudo se liga, você pode penetrar no texto via imagem ou na imagem via texto. Depende de cada leitor. Eu por exemplo entro num texto via imagem, mesmo que ele não seja ilustrado, eh, eh...

Faço diferença entre livro ilustrado e livro de imagem: neste sim , a imagem prepondera e pode até ter algum texto, mas a força está na imagem. Mas se o livro é com ilustrações ou ilustrado, para mim é um casamento para sempre: um ligado no outro.

 

9)

RF: Outro dia meu filho Ivan Murilo chegou da biblioteca escolar com um livro enorme que deveria ser lido em poucos dias. Eu perguntei: “Por que você escolheu este livro O pirata holandês?” Ele olhou para mim e respondeu: “Escolhi o livro por causa da ilustração. Folheei o livro todinho antes de escolher e queria saber da história por causa dos navios e das roupas dos marinheiros”. Isso prova, sem teorias, que a ilustração é imprescindível ao texto literário e desperta o interesse pela leitura. O texto era muito longo para uma criança de 8 (oito) anos ler em 3 dias, mas ele ficou deslumbrado com a ilustração e acabamos lendo o livro. Alguns críticos acreditam que a ilustração não pode sobrepor ao texto. Como a ilustradora Ana Raquel pode explicar essa relação entre texto e imagem?  

 

AR: Bem, acho que estou falando até aqui exatamente disso... A imagem ajuda a abrir o texto em mil janelas ou mais se for bem criada, instigante. E por outro lado também, uma ilustração imprópria, pode cortar de vez a beleza e a viagem de um texto...

 

10)

RF: Eu adoraria ver a obra Escritos em verbal de ave (2011) de Manoel de Barros sendo ilustrada pelas mãos de Ana Raquel, mas não foi o caso. Manoel mesmo desenhou, ou melhor, repetiu o desenho de O guardador de águas (1989) neste seu último livro publicado pelo grupo Leya. Como Ana Raquel pintaria a alma de Bernardo após a sua morte? É possível descrever como se tivesse ilustrando ou isso só é possível no ato da ilustração?

 

AR: Ai, Rosidelma, que belo desafio. Eu adoraria, mas só consigo ilustrar ilustrando... invento tudo na hora, mas é tudo verdade o que desenho; acho tudo num buraquinho que faço nas palavras e elas me dão o mapa da mina! Mas tem que ser na hora agá!

 

(NOTA: Esta breve entrevista foi concedida a mim, Rosidelma Fraga, pela ilustradora de literatura Ana Raquel Máximo, exclusivamente para tese de doutorado. Sendo assim, os direitos de publicação pertencem às autoras. Qualquer referência, sugere-se que a fonte seja citada).