Já estava no Recife quando irrompeu o movimento militar de 64. Viajei em 11 de fevereiro d’aquele ano. O golpe aconteceu a 31 de março.

Recebi telefonema de mamãe, indagando se havia sido preso. De Esperantina, logo de lá, informaram para ela, que eu estava detido. Tinha que sair de lá o boato. Os seus artigos são muito duros - meu filho - reclamava. Deixe de ler esses livros - recomendava. Sempre insistia. Eu sempre ponderava. Não compreendia aquelas admoestações. Ela tinha razão. Queria me proteger.

Trouxe alguns livros de minha biblioteca para Recife, deixando a maioria em Teresina, na casa de mamãe. Muitos foram queimados. Boataram, também, que iam devassar bibliotecas particulares, inclusive a minha. Sempre li de tudo. Até parte da coleção de Machado de Assis foi queimada no fundo do quintal da casa à rua Areolino de Abreu.

A Amazônia é Nossa, O Petróleo é Nosso, Pão, Feijão e as Forças Ocultas e outros livros foram queimados. E as cinzas enterradas. Queima de livros, tal qual queima de arquivos. Regime policial, ultraconservador, de direita.

Que terror! Que coisa horrível?! Queimar livros? A memória do País. Nunca
imaginei que incomodava tanto.

Escapou do terror da queima e da devassa à mineira o Livro “Senhor Deus dos Desgraçados” de Gondin da Fonseca, já na quarta edição. Trouxe-o para o Recife. Se tivesse ficado no Piauí era cinza e enterrada no fundo do quintal.

É isso mesmo.

Os movimentos ditos revolucionários e revolucionários com ditadura civil ou militar, de direita e de esquerda, agem da mesma forma, com os adversários. Não há ditadura, golpe, guerra e revolução suaves. Todos praticam as mesmas atrocidades, com os inimigos. Aqui, e em qualquer país do mundo. Basta ser conflito, para ser desumano e bruto. Quem quiser se iluda do contrário. Sempre foi assim. As instituições internacionais, quando não apaziguam, são meras espectadoras de seus efeitos, acolhendo os exilados e contabilizando as causas perversas. Enquanto a Justiça não fôr o fim colimado pelo homem, nada disto deixará de acontecer

Magno Pires Alves Filho é escritor, advogado e membro da Academia Piauiense de Letras.

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