Somos seres em mutação, camuflando-nos diariamente, para uma guerra que travamos com o espelho, com o nosso íntimo que nos censura, tentando escapar dos olhares que nos cercam. Mudamos de pele, revolvemos nosso ser, morremos simbolicamente milhares de vezes, nos reinventamos, às vezes tomamos um porre, fumamos um cigarro e ébrios buscamos nos desligar, como um vidro estilhaçado, se faz inteiro em um gole, em uma baforada.


    Repaginada, rebobinada, um novo filme e não somos mais a mesma película, tantas vezes vista, desenrolando-se sobre olhares que nos reconhecem e nos estranham, desejando desvendar mistérios.


    A banda manda tocar de um jeito, mas do meu é desafinado. De vez em quando afino as cordas, danço sobre elas como uma malabarista, bailando sob o suspense de olhares atônitos, cai, cai, não cai... Às vezes caio, nem sempre em abraços quentes, deparo-me com a desilusão, da qual procuro desvencilhar-me em um mergulho em mim mesma. E quando emergir não quero ter certezas, para poder alimentar ainda alguma esperança.


 Ao emergir lanço os olhos sobre mim e percebo as cicatrizes, os cortes feitos pelas cordas no momento em que me enlacei dasafinada com elas, desafiando a banda, como um peixe preso em tarrafas. Ao olhar cada marca, leio uma história, uma memória, uma luta que ganhei, pois mesmo perdendo, me dou o poder de recriar ou desconstruir, sou dona dessa versão, capaz de dizer o inverso, fazendo ziguezague nos percalços dos versos, entre abalos sísmicos desse micro universo. 


     Percorro o mundo e sei que embora pareça o mesmo, também já é outro, caminho por trilhas desconhecidas, que dormem terra e acordam água. Meus olhos então se fecham para que eu alce vôo, buscando reencontrar aquela chama ancestral que alimenta os sonhos.
  
 

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