Vêm de longe – final da década de 30, início da de 40, século passado, as lembranças que guardo dos dois casarões situados às margens da estrada que fica  entre Nossa Senhora dos Remédios e Barras: “Mocambo” e “Mimosos”, distantes um do outro apenas 6 Km. Propriedades dos parentes Francisco Marcelino Castelo Branco (Chico Castelo) e Lídia, locais onde o casal morou até quase o final de suas existências, desenvolvendo atividades agropastoris e comerciais, gozando das delícias que, àquela época, a vida campesina oferecia. Eram moradias típicas do tempo patriarcal: grandes, espaçosas, acolhedoras, repletas de portas e janelas. Localizadas em pequenas elevações, cercadas de matas verdejantes, no inverno, e secas, no verão. Paradas obrigatórias dos antigos transportes terrestres que transitavam por ali.

      Primeiro, o Mocambo, de onde minhas recordações são vagas, em virtude da pouca idade. Gravei na memória, contudo, a bela comemoração das Bodas de Prata do casal, realizadas na localidade com grande pompa.

      Compareci na companhia de meus pais – Lázaro e Baiinha, e dos manos.

      Familiares e amigos das redondezas e de longe, inclusive os de São Luís do Maranhão, acorreram ao velho solar. Barracas de palha armadas frente à moradia, para abrigar os inúmeros convidados. Festança das maiores. Missa, entronização das imagens do Coração de Jesus e Maria. Fartura, alegria, dança ao som de jazz. Atualmente, o “Mocambo” está passando pelo processo de assentamento do INCRA.

      Depois veio os “Mimosos”. Lembranças claras: criança, menina-moça, adolescente, estudante, noiva, casada, passando por ali rumo a Teresina ou ao Peixe, viajando no “Jangadeiro”, transporte misto – passageiros e cargas, cujo proprietário era o parente Micípsa Rego. Chico Castelo, na quitanda da esquina, ofegante no seu traje de calça e camisa de mangas compridas, atendendo aos agregados, que vinham vender e comprar produtos na loja do patrão. Dona Lídia, muito gorda, bem vestida, alegre e simpática, sentada na cadeira de balanço da longa varanda. No quartinho dos fundos, sempre atenciosas, Constância e as filhas Nazaré e Deusanira, auxiliadas por um batalhão de serviçais, ofereciam aos passageiros, de graça, iguarias da casa: copos de leite, coalhada, cajuína, bolo frito, beijus. Conversas, fofocas, piadas do Micípsa, buzina de carro, “corre-corre”, despedidas.

      Recordo-me de um sábado da Aleluia passado no acolhedor casarão, após Semana Santa na “Santa Cruz”, fazenda do parente Manoel Lages. Matança de Judas e de boi gordo. À noite, festa de sanfona na vizinhança – residência dos também parentes Quincas e Sinhá. Nos dias atuais, a propriedade pertence aos herdeiros do falecido deputado Abraão Gomes. Dos “Mimosos”, guardo preciosa relíquia literária, poesia escrita por Conceição Castelo Branco, piauiense, filha do saudoso primo Jofre do Rêgo Castelo Branco, ex-prefeito de Teresina, da qual, na oportunidade, transcrevo o seguinte trecho:

       “Campo bruto,
       chão vermelho
       como vermelho é o sangue
       do negro velho e indolente
       que trabalha todo dia,

       mandado como menino...

       Carnaubeiras esparsas
       Que se balançam com o vento
       Como o preto se balança
       Pela força da cachaça boazinha,
       Feita em casa...
       Mimosos!
       Recordações de infância
       E saudades que fazem bem!

      Hoje, as duas casas são apenas ruínas. Dói muito vê-las assim, espectros de uma saga familiar. Lamento bastante o descaso dos governos federal, estadual e municipal para com as coisas de nossa história, de nossa cultura. As entidades ligadas à área ainda esboçam algumas ações, ineficientes, porém.

      Até mesmo a política de tombamentos é imprecisa e vaga. Os proprietários de bens a serem preservados deveriam receber melhores esclarecimentos, para, assim, poderem aceitar e cooperar com o procedimento.

      Mas, nem tudo está perdido. Nos meus passeios à terra-berço, ainda posso me deleitar ao ver, de pé, testemunhas de um passado de glória, as seculares mansões da cidade de Cabeceiras e do povoado São Francisco, outrora refúgios sagrados dos parentes Francisco da Costa Veloso (Dodô) e Antenor de Castro Rego, no momento, abrigando seus descendentes. Vale lembrar, na ocasião, que “as casas, como as pessoas, têm alma e coração”. Seria oportuno e proveitoso que as instituições culturais da região: Academia de Letras do Vale do Longá e o Instituto Histórico e Geográfico de Barras, nas pessoas de seus respectivos acadêmicos, João alves e Antenor de Castro Rego Filho, incluíssem em suas muitas atividades previstas a preservação dos bens históricos-culturais da região e não deixassem que eles virassem LEMBRANÇAS EM RUÍNAS.

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