Delicio-me, na semana, reviajando as crônicas de um mestre - as crônicas de Machado de Assis. Sabemos, todos, do vão intento e da fraca esperança que anima os cultores deste gênero literário, de todos talvez o mais brasileiro, já que aqui o inventamos e seguimos reinventando-o de diversos modos e maneiras. Não há escritor brasileiro que não tenha passado por ela com maior ou menor sucesso. Não importa - ao gênero, como a um imposto, devemos dar nossa parte e quinhão.

Do poeta internauta, às voltas com os logarítimos da palavra escrita, ao rabiscador de papéis velhos, ninguém escapa: necessário passar pela crônica, esta escrita fugidia destinada a viver precariamente nas folhas de um jornal, e a existir ali apenas com o indispensável vigor de um dia, para agonizar logo mais à noite, e morrer, de vez, com a chegada amanhã de nova edição fotocolor de nossos aguerridos diários.

A crônica, de seu lado, nem aguerrida é - prosa tocada nas cordas do vento pode que, infensa ao dia, só recorde, ainda uma vez, que a palavra, mais que notícia, possa ser estorieta tragicômica do dia-a-dia ou simples carícia de verbo à flor da pele - em meio a bombas, tiros, assassinatos, atentados, cerimônias fúnebres ou a mais recente falcatrua acima ou abaixo da linha do Equador.

Machado de Assis, que foi homem discreto, não poupava as mazelas de seu tempo, empreendendo, por exemplo, verdadeiro estardalhaço naquele longínquo verão de 1885, nas páginas da Revista da Semana: o Rio de Janeiro, segundo o cronista, tinha sido tomado pela violência...

Lidas com os olhos de mais de um século, tudo se parece e se confunde, se mistura e embaralha: "Trago aqui no bolso um remédio contra os capoeiras". Substitua-se a palavra "capoeiras" por "assaltantes" (ou "gangues") e teremos, sem tirar nem pôr, inteirinho, o Rio de Janeiro de 1998 onde a violência, de tão banal e corriqueira, nem chega mais às manchetes dos jornais ditos sérios, limitando-se às publicações populares, com seus, de resto ordinários, apelos ao sangue e ao horror.

A crônica machadiana, sem supor jamais que um dia a olhassem, com os olhos que a decifram agora este vosso escriba, no maio tupiniquim, ela, a crônica, humilde na aceitação plena de sua não-duração, registra, inquieta e perguntadora, por que aos capoeiras lhes aprazem "plantar facadas nas nossas barrigas"?

E o que é melhor - se responde com a graça quase inocente de um tempo sem sociologismos nem marxismos de segunda mão: o capoeira recorre à navalha e espalha facadas pelo simples motivo de que os "jornaes", sem atinar para o perigo, darão notícias das suas façanhas e divulgarão os nomes de alguns. A razão, pois, é idêntica a que, em nossos dias, animaria, por exemplo, um mau cantor a aparecer num programa de calouros - ainda que gongado e humilhado, faz alarde, dá-se a público e impressiona, mesmo que de viés, vizinhos e namoradas.

Hoje a argumentação também seria outra e o cronista não esqueceria as alarmantes taxas de desemprego e de pronto recordaria a situação "lastimável" em que se encontra a economia do País. O capoeira de "hontem", sociologicamente redesenhado, seria o "trombadão" de hoje saqueando bolsas e vidas, baixo o cenário "gotham city" de nossas cidades aflitas.

A solução anunciada por Machado de Assis pretendendo acabar com a "capoeiragem estulta de nossas vielas", na crônica de mais de um século, é quase ingênua, não a movesse a mestria do estilo, a palavra exata e a sua inextricável vocação literária: "Não publicar mais nada, trancar a imprensa às valentias da capoeiragem. Uma vez que não se dêem mais notícias, elles hão de recolher-se às tendas, aborrecidos de ver que a crítica não anima os operosos".

Hoje, a crônica seria a mesma, embora variasse por certo o reclamo das soluções - desde a exigência das Forças Armadas nas ruas até aquela outra, mais utópica, mas não menos verdadeira - a da distribuição equânime de nossas riquezas. Ó luxo sem plumas.

Lá como aqui a crônica não se fez de rogada - ciente de sua vida breve, só se quis a voz de um dia, a qual, apesar de fraca e o mais das vezes sem préstimo, registra e vítupera, alardeia e multiplica o mesmo antigo desenho, imóvel no tempo como a um velho retrato que foi perdendo a sua cor.

Assim a vida, as cousas da vida e a crônica que faz a alma do dia roçar de leve as folhas de um jornal

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