• Rogel Samuel

     O livro que nasce clássico


    Recebo "O morro da casa grande" e mergulho em sua leitura, em suas "letras preciosas", como disse Genésio na página 18, e avanço em sua leitura, deliciado pelo ritmo daquela prosa.

    O romance já nasce clássico. Sua prosa é a dos grandes escritores brasileiros contemporâneos, e como disse tem um ritmo, tem uma sonoridade, tem uma imagística própria, como que única.

    Eu pretendo comentar este livro.

  • Eneas Athanázio

     Terminei de ler com muito interesse sua novela “O morro da casa-grande”.

    Confesso que fiquei surpreso por vários aspectos. Em primeiro lugar, pela linguagem muito peculiar e típica em que não faltam alusões às coisas e aos costumes locais, tendo como pano de fundo uma região do Piauí com nomes que soam curiosos para pessoas de outras regiões e que nos revelam novos aspectos deste pais tão vasto. Em segundo lugar, agradou-me seu estilo, muito pessoal e característico, dando à narrativa um colorido peculiar. Trata-se, enfim, de um livro agradável, de leitura saborosa, através do qual acredito ter aprendido mais um pouco sobre o Piauí e conhecido um autor com evidente talento para a ficção. Meu parabéns e meus votos de sucesso. Grande abraço, Enéas Athanázio
  • Francisco Miguel de Moura

     O título do romance de Dílson Lages lembra a agradável obra clássica de Emily Brontë, “O morro dos ventos uivantes”. Aqui, a sugestão bem me atrai, mas não me parece fácil escrever crítica de romance. Ainda mais porque sabemos da cultura, sensibilidade e criterioso modo de ser e de fazer literatura do Prof. Dílson Lages. Poeta dos melhores da nova geração, e, como divulgador e crítico, um incansável.

    A crítica de romance merece muito mais atenção, por ser uma obra superior, assim como uma sinfonia feita de muitas vozes, mas no fundo uma obra ou monumento para ser lido e apreciado pelo povo nela figurante: personagens, história, forma de ser, de agir e de reagir. Reúne o clássico ao popular. Como na epopéia. E também porque tratamos do poeta, porém estreando na ficção, com “O morro da Casa Grande”.  Romance ou novela? Penso que hoje essas separações não são estanques, nem mesmo quando se referem à ficção menor: conto e crônica. No dia do lançamento, eu dizia que se tratava de um romance de espaço, e citei “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, para exemplificar. Ao encontrar o cachorro “Tubarão”, em companhia de Genésio, lembrei-me da cachorra “Baleia” e Fabiano. E nada mais seria de lembrar, mesmo porque o estilo do mestre Graça é muito seco e o do Dilson é bastante lírico.

    Depois de uma segunda leitura, verifico que, de fato, “O morro da Casa Grande” é um obra ficcional de espaço, dentro da conhecida classificação do Prof. Massaud Moisés: romance de tempo, personagem e espaço. Os personagens mais importantes, aqui, são a cidade de Barras, a Igreja (mais do que a Casa Grande) e a fazenda (ou as fazendas). Mais que os coronéis, elevam-se Genésio (o empregado, o faz-de-um-tudo) e o menino Marciano (neto e bisneto de um dos coronéis). Por isto mesmo é um romance histórico, onde campeia a poesia e cai a ficção para o seu degrau estritamente necessário, como todo romance à clef. Mas é incrível como sua prosa levanta esse passado de Barras, da cidade que se desenvolve e das fazendas que decaem no patriarcalismo em extinção. Sente-se o gosto da terra e da gente fervilhando num passado que morre aos poucos e aos poucos se integra em novas formas de vida, trabalho e expectativas. A reconstituição saudosa, em vida e linguagem, desse passado recente – meado do século XX – é sem dúvida o grande mérito da obra, sem esquecer o estilo vazado com o esmero de mestre: - Claro, escorreito e poético do princípio ao fim, basta uma releitura do 1º capítulo tão elogiado, e com razão, pelo crítico Rogel Samuel, por seus movimentos: o rio Marataoã se deslocando, as ondas de vento e de luz, o leque da balconista Florisbela fazendo coreografias, a montaria em cadência, os cabelos das carnaúbas... Na verdade, um momento antológico da obra.

    Cabe ressaltar que nossa literatura é rica em estilistas. Apesar das grandes diferenças, citamos José de Alencar, Machado de Assis, Graciliano Ramos e O.G. Rego de Carvalho, cujas leituras nos animam a sempre escrever com responsabilidade, paciência e paixão. Eles foram e são nossos mestres, e Dílson Lages deve ter bebido nessas e em muitas outras grandes fontes a prática do estilo e da criação que estimulam o seu talento. Muito mais teria a dizer, mas essas palavras bastam como testemunho: “O morro da Casa Grande” é uma obra valiosa e representativa da nova geração de escritores piauienses, filiando-se ao que seria uma epopéia moderna, onde sentimos que todos os acontecimentos estão sendo moldados como unidade estilística e poética, para relevo das tradições e estudo das grandes transformações que sofremos hoje, inclusive na literatura.

    Parabéns, Dílson Lages, por sua estréia na ficção.
    ______________
    *Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina, PI. Membro da Academia Piauiense de Letras, da União Brasileira de Escritores (SP) e da Associação Internacional de Escritores - (IWA - sigla em inglês)

  • Acilino Madeira

    Fotos:Dilson Lages Monteiro

     

    Dilson Lages Monteiro  

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    Acabei de ler o livro O morro da casa-grande (e recomendo) do escritor piauiense Dilson Lages Monteiro. Uma relato prenhe de memórias, de recordações de uma cidade que viu sua Igreja Matriz ser demolida em 1963.

    ___ Na Rua da Caquengo, a vendedora de espanadores, descontente com o espetáculo, parou à porta de Marciano, avisando Dona Margarida:
    ___Cristo se esfarelou, dona Margarida!
    Marciano recluso ao quarto, às voltas com as páginas da história do Piauí, parou para ouvir a versão da vendedora, mas nada entendeu além da notícia esperada, e ocorreu-lhe a bisavó repetindo:
    ___ Barras vai desandar! Barras vai desandar! Aqui não se teme nem os castigos de Nossa Senhora.

    Nesta passagem o relato de um sofrimento pelo apagamento da memória, como se as autoridades decidissem para além da paralisia de quem não pode fazer nada… Assim foi e assim será o Piauí de esquecidas e apagadas memórias. O romance se passa em Barras de Marataoã pelos meados do século passado. O livro cheira a óleo ardente de babaçu saído do interior das amêndoas em tachos ardentes sob chamas, a farinha torrada naspedras do forno do aviamento… o livro tem cheiro de Piauí, meu Piauí querido.
    Um interior distante de gente distante das coisas modernas, um tempo em que o menino queria ser coronel, e a bisavó rezava pelas ausências dos males do mundo numa penitência eterna que só os católicos guardavam em silêncio.

    O velho patriarca rogava aos seus:

    ___ Não se metam em politica. É coisa traiçoeira. Política é para os maus, os perversos, os sem-escrúpulo. Os bons são destruídos moralmente, por mais que façam.

    Barras das famílias, das fazendas e dos alqueires herdados de destemidos desbravadores dos sertões mafrenses. Barras dos coronéis, das beatas e dos padres desalmados.
    Esquecida, corroída de ternura amarelecida, e que um dia já foi o retrato do Piauí inteiro.
    Barras.

  • A estreia de Dílson Lages Monteiro na ficção

     Cunha e Silva Filho

                A história da literatura piauiense está a pedir uma história da ficção, se não com uma obra de maior alcance, pelo menos com uma boa síntese.

                O Piauí não tem muitos autores no campo ficcional, como não possui muitos filósofos segundo, certa vez, afirmou em trabalho ensaístico o jurista Celso Barros Coelho e, ao que me parece, no conto é bem mais aquinhoado, e, quantitativamente, mais ainda o é na seara poética.

                O primeiro ficcionista piauiense mais conhecido, registrado pela historiografia foi Francisco Gil Castelo Branco (1848-1891), autor de Ataliba o vaqueiro (1878). Valendo-me das principais fontes da historiografia das letras piauienses, a indispensável e pioneira obra de João Pinheiro, Literatura piauiense – escorço histórico, aquela obra de Francisco Gil é por esse historiador considerada uma coletânea de contos, saídos a lume em folhetim do Diário de Noticias do Rio de Janeiro, no ano de 1875.1 Como salientei atrás, a fortuna critica de ficcionistas piauienses é escassa e, num cômputo geral, sobressaem alguns nomes mais conhecidos e poucos os mais festejados.

                Dessa maneira, o surgimento de um novo autor no âmbito da prosa de ficção se reveste de momento auspicioso.

                O mais novo autor piauiense é, agora, Dílson Lages Monteiro, escritor muito jovem ainda. Ele é de 1973, nascido em Barras, município do Piauí. É formado em Letras pela UESPI.

                Dílson, como escritor, estreou como poeta, com obras bem acolhidas pelos leitores e pela critica. Contudo, sua atividade se estende à prática docente, desenvolvida em moldes renovadores, tendo como centro de interesse os estudos mais recentes da comunicação escrita, da análise do discurso, da linguística textual. Daí ter se tornado logo autor de uma bem realizada obra para a área da Redação, que é seu livro Texto argumentativo – teoria e prática (2007), publicado em Teresina. Quão longe estamos do Piauí dos anos sessenta, em que os estudos de língua e literatura ainda se realizavam com tão precários recursos teóricos nesses dois domínios dos estudos literários. O jovem professor, que é também editor,  mantém ainda dois encargos na área do conhecimento da escrita: tem seu Laboratório de Redação, que leva o seu próprio nome e  é diretor do prestigiado PortalEntretextos, um verdadeiro fórum cultural com ênfase em assuntos literários e dispondo de um bom  número de competentes colaboradores.

                Apesar da juventude, Dílson, dentre múltiplos afazeres, põe-se agora à prova de escritor de ficção com o seu recém-lançado livro O morro da Casa-Grande.2

                Propositalmente, usei, no parágrafo anterior, o termo “livro.” Sendo assim, me obrigo a penetrar no terreno da narratividade e, dessa forma, me aproximar de uma classificação que a minha experiência teórica melhor indicar, posto que, por ora, provisoriamente.

                Mais do que uma taxativa classificação genológica para a narrativa do livro do Dílson Lages, seria melhor me ater, primeiro, a alguns aspectos envolvendo a capacidade do autor em lidar com a criação ficcional, que para mim, em última instância, é o que mais importa.

                Comparando esquematicamente os instrumentos da linguagem do autor empregados na sua produção poética, um dado favorável me vem à tona: a ideia propiciada pela leitura da sua narrativa teria aquela mesma sensação da leitura de um texto poético, não necessariamente da autoria de Dílson Lages, mas daquilo que a leitura de um poema nos provoca, uma camada de natureza opaca, de natureza indefinida, que faria parte do ato da própria criação literária. E essa sensação aqui referida que me passou no momento da leitura aponta muito mais para a fruição de um texto bem pensado e elaborado, tocando os sentidos mais do que o mero ato comunicativo, mais do que o esforço despendido na análise da sua narrativa, através do trabalho exaustivo da decomposição de seus elementos estruturantes.

                Há um dado que muito conta a favor desse escritor: é que, ao lado da linguagem que, por vezes, tangencia a poetização do seu tecido literário, ao mesmo tempo existe um cuidado especial com a linguagem, com a sintaxe do discurso narrativo, e isso é bem visível no espaço do enunciado, no qualas imagens poéticas e o lirismo potencialmente forte se casam perfeitamente, numa harmonia de um discurso que trai um sabor - diria - clássico, mas clássico sem ser arcaizante, clássico à maneira do que fez Graciliano Ramos com o seu texto enxuto, comedido, sem arestas. Acompanha Graciliano Ramos no uso do discurso indireto livre. Usa às vezes enunciados de uma frase apenas, e nisso me lembra também Graciliano Ramos.

                Dílson Lages, atento aos segredos e ao domínio da comunicação literária escrita, não esquece esse recurso retórico, emprega os termos regionais referentes a objetos, a expressões do vocabulário do mundo físico ou cultural típico piauiense que fazem ressoar saborosamente aos nossos ouvidos relembranças do nosso tempo de memória da terra. Prima pela correção sem os exageros do purismo anacrônico, usa da tmese, trabalha a frase até o seu limite máximo de correção, sem, todavia, tornar o discurso narrativo arrevesado. Não cria linguagem nos moldes de Guimarães Rosa, está mais para os escritores sóbrios, de texto legível, claro, cristalino. Na obra houve poucos erros gráficos.

                O texto de Dílson nos empurra para a frente – li-o num dia -, nos força o intelecto e nos propõe indagações de ordem vária. Além disso, do início da narrativa até o desfecho, o comentarista dessa pequena narrativa não hesita em reconhecer estar diante de um narrador consciente de seu papel de escritor, de sua pessoal visão da existência dentro dos limites daquele recorte espacial e temporal - seu trabalho é com a memória imaginativa e histórica -, reunindo seres, crianças, mulheres, homens, velhos, natureza, hábitos rurais, costumes, ideologias implícitas, sentido religioso e formas de vida em decadência inescapável. Sua ambiência se passa entre o campo e a cidade interiorana dos anos cinquenta do século passado indo até aos inícios da década de sessenta daquele século. A extensão física da narrativa, segundo já assinalei, é pequena, nem dá pra nomeá-la de romance.

                Entretanto, o que verticaliza as possibilidades positivas da história relatada fica por conta do mundo interior de alguns personagens, com especial destaque para Marciano – símbolo da “ idade de ouro” – a infância.

                Marciano, quer me parecer, é personagem perfeito na sua composição. Tem vida própria. Às vezes, durante a leitura de O morro da Casa-Grande, me veio à lembrança a autenticidade e ternura do personagem Ulisses, de O. G. Rego de Carvalho.3 Não que se tenha a mesma situação vivenciada pelo personagem-central do romance do autor de Oeiras, mas pelo bom resultado da composição do personagem Marciano – apenas uma menino, um adolescente de 13 anos, com uma enorme carga emocional, bem como com seus questionamentos próprios da idade, causando perplexidades aos adultos que o cercam. Inclusive Marciano é um personagem que faz a travessia entre o campo e a cidade. Sua participação na história não pode ser negligenciada sob vários enfoques, social, histórico, ideológico, religioso etc. Não podemos negar ser Marciano uma das figuras centrais da narrativa

                A fabulação tem, porém, restrito número de peripécias (embora padeça de um grande número de nomes de personagens apenas citados, mas sem correspondente desempenho na história, ainda que como figuras secundárias) ou episódios mais relevantes à totalidade da narrativa, sendo que as duas principais, que impulsionam o narrador para a frente foram o acontecimento da morte trágica e misteriosa de Clemílson, com a forma engenhosa de relato não apresentando explicitamente alguns dados adicionais do incidente fatal, ou seja, deixando, a critério do leitor, algum espaço para especulação do fato. A outra seria os antecedentes e as consequências da derrubada da Igreja Matriz de Barras, em 1963, com toda a sequela de desdobramentos religiosos, culturais, políticos e sociais aí implicados.

                Os personagens outros que integram o plot, Genésio, coronel Custódio, coronel Alberto Pires, Deusimar, a bisavó carola de Marciano, deixam lá suas marcas pessoais e inconfundíveis.

                Entretanto, o leitmotif da narrativa não deixa de ser a derrubada da igreja na sua imbricação com a imagem fantasmagórica do morro da Casa-Grande. Dessas duas circunstâncias podemos depreender toda a motivação  do núcleo  do relato. A Igreja da Matriz  de Barras reforça esse elemento temático-nuclear com  a chancela histórica de ilustrações inseridas no corpo do texto , assim como de outras ilustrações e paisagens alusivas ao meio rural, a um antepassado histórico, ao rio Marataoã, a ruas de Barras, a outros logradouros da cidade e, finalmente,  a ilustrações representativas daquela igreja. Esses dados da realidade no campo e  na cidade, por assim  dizer, quebram a chamada ilusão ficcional, predispondo o leitor a uma volta ao mundo empírico e a ver a ficção como  uma mera construção imaginativa, mas não desligada dos seus liames histórico-culturais.

               A Igreja da Matriz funciona como constante índice do desdobramento da intriga até o epílogo. O morro da Casa-Grande e a Igreja da Matriz são os dois esteios centrais do livro. Valem, portanto, como personagens-símbolos. Tudo no desenvolvimento da narrativa serve para encontrar seu ponto de convergência, o morro e a igreja, cujo passo final é a destruição da velha Matriz. A ausência dela explica a própria decadência da vida e da época do coronelismo, exemplificado na frase inicial do capítulo 23: “Coronel era gente que mandava.” 4  Atente-se para a forma verbal pretérita “mandava”.


                Não há como não pensar na ficção do “romance de 30”, com Fogo morto, de José Lins do Rego, com Vidas secas, de Graciliano Ramos, por exemplo. Num, por retratar a decadência rural, noutro, por linhas transversas, com personagens como Marciano e o cachorro Tubarão, que palpitam de vida e de humanidade. Claro é que no Morro da Casa-Grande a dramaticidade não voa tão alto nem tem a dimensão trágica das narrativas mais densas. No entanto, na ficção inaugural de Dílson Lages há sinais palpáveis de habilidade e criatividade. Nas descrições modelares da vida rural, da fauna e flora nordestinas, piauiense, diga-se mais exatamente.

                Tampouco se ressente a obra do Dílson Lages de uma linguagem que demonstre ausência de recurso técnico-narrativos, visuais, de sondagem psicológica (aqui se afastando de traço do gênero novela), de desenhos certeiros e objetivos na caracterização dos personagens. Genésio, o agregado e capataz, por exemplo, é digno de nomeação pela vida que tem como criação literária. Marciano, nem se fala.

                Vejo que os comentários que acabo de tecer, num apanhado geral, estão longe de fazer jus a outras camadas subjacentes que fazem dessa narrativa um deleite para a leitura de uma ficção que se recomenda por si mesma e, por outro lado, coloca, sob os ombros do autor, a responsabilidade de dar continuidade a uma carreira de prosador, já promissora por todas as qualidades ou restrições que lhe possamos fazer.


               Não quero concluir meus comentários sem, pelo menos, fazer um enquadramento classificatório final. A narrativa de Dílson Lages se insere no gênero da novela. Não obstante propiciar ensejos para uma visão da existência fragmentária, a obra sinaliza, no seu conjunto de capítulos, para possíveis desdobramentos de “células dramáticas” ( Massaud Moisés) próprias de uma novela e não de um romance, que é um passo final para descortinar uma visão totalizadora (Lukács). Em outros temos, para uma visão horizontal e vertical da complexidade da existência física, humana e mental.

     

    NOTAS:
     

    1 PINHEIRO, João. Literatura piauiense – escorço histórico. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1994. Posfácio de Francisco Miguel de Moura. O leitor pode também consultar com proveito os historiadores Herculano Moraes, Francisco Miguel de Moura e Adrião Neto.

    2 LAGES MONTEIRO, Dílson. O morro da Casa-Grande. Teresina; Livraria Nova Aliança Editora, 2009. Imagens da capa: Ângela Rêgo; Revisão: Luiz Filho de Oliveira

    .
    3 CARVALLHO, O. G .Rego de. Ulisses entre o amor e a morte. 7. ed. Meridiano, 1989.


    4 LAGES MONTEIRO, Dílson. Op.cit., p. 95.

     

  • Airton Sampaio

     Airton Sampaio

    Li a novela O Morro da Casa-Grande, de Dílson Lages Monteiro (Teresina, Nova Aliança, 2009) de um só fôlego, para pura fruição. Depois, reli-a e tresli-a, com olhar crítico. Trata-se, a meu ver, de uma novela em tom de crônica porque os personagens e os três núcleos tramáticos não ousam deixar, ou deixam apenas timidamente, a condição de RELATO para alçar-se à de NARRATIVA . É que uma narrativa, por mais descritiva (sim, há descrições de ações) que seja, resulta de uma CRISE no desenrolar normal dos eventos, tornando-se um NÓ a ser desatado, quer para os lados, em forma de novela, quer para a profundidade, em forma de romance.

    O problema, se isso for um problema, é que em O Morro da Casa-Grande o relator (não me atrevo a chamá-lo de narrador) insiste em privilegiar mais a descritividade de um lugar (Barras-PI) num dado tempo (década de 1950) do que ariadnicamente puxar, até maiores consequências, os fios que saem dos três núcleos referidos (a derrubada da igreja-matriz, o sumiço e morte de Clemílson e a passagem, aliás excelente prosa poética, dos ciganos pela cidade). Isso só é feito timidamente, mais à maneira de um relator que de um autêntico narrador, com pequenas vantagens narrativas. Frente a frente com o goleiro, Dílson Lages perde o gol.

    Questão de escolha. Entre uma novela mais densa ou até um romance, o autor optou por nos dar uma crônica de mais ou menos 130 páginas. Nada contra a crônica, que é um grande gênero, mas talvez a literatura brasileira de autores piauiense estivesse agora mais enriquecida se o vezo narrativo houvesse, em O Morro da Casa-Grande, predominado sobre a cronicidade. Não que não tenhamos ganhado: a novela é boa, bem escrita, e está acima da média do que vemos comumente aparecer aqui nesta terra de muito sol e, entra governo sai governo, sempre pobreza tanta. Mas...

    Também há, penso eu, o desperdício de grandes personagens, dos quais o mais pobre é o próprio relator, um menino que só não chega a ser piegas porque o autor, ainda bem, o controla e não o deixa desandar para a nostalgia, que existe, porém é, graças a Deus, contida. Os coronéis Firmino e Custódio e o trabalhador Tonho são, por exemplo, personagens de grandeza potencial que aparecem, na novela, apenas como esboços. Ora, mesmo numa novela os personagens podem crescem verticalmente, como é exemplo palmar o Ulisses de Ulisses entre o Amor e a Morte, de O. G. Rêgo de Carvalho, um monumento da literatura brasileira. Nem se trata de uma sugestão de que a novela O Morro da Casa-Grande se converta no romance O Morro da Casa-Grande: não raro a emenda sai pior que o soneto.

    Como o que faz de um texto um texto literário é, a rigor, a estilização da linguagem que, por isso, atrai para si mesma as atenções da recepção, desviando-as de outros elementos secundários, como o enredo, patente é que, em O Morro da Casa-Grande, Dílson Lages Monteiro nos brinda com uma linguagem enxuta, escorreita, precisa. É claro que me causa estranheza qualquer lugar, no caso Barras, em qualquer época, no caso a década de 50, desprovido de palavras e expressões interditadas, como gírias (não precisa exagerá-las) e palavrões (idem), a denunciar a onipresença, decerto IRREAL, de um formalismo lingüístico e de uma assepsia que, espera a literatura, não advenham de nenhum moralismo, com ela incompatível. No entanto, meu maior medo, ao saber que a trama, afinal pouco desenvolvida, se passava no interior do Piauí, foi o de termos ao fim e ao cabo mais uma obra caudatária de um regionalismo tacanho, com expressões regionais metidas a fórceps no texto, à Fontes Ibiapina. Isso NÃO ocorre em O Morro da Casa-Grande, que tem evidentes marcas regionais sem ser, meramente, regionalista.

    Recomendo a leitura de O Morro da Casa-Grande e saúdo a boa estreia de Dílson Lages Monteiro na prosa de ficção. O Piauí, tão infelicitado por maus políticos, cada qual disputando quem é o pior, o Piauí também carece de bons ficcionistas. Você é bom, Dílson. Avante!

    Diário do Povo do Piauí, Teresina, 13 abr 2010, p. 18.

  • Manoel Hygino dos Santos

    Coroneis e camaleões   Dilson Lages Monteiro multiplica-se por quatro para seu projeto de vida: como poeta, cronista, professor e editor. Desde 2004, mantém o Portal Entretextos, para reunir autores de prestígio nas letras do Brasil e Portugal.
    De dois em dois anos, publicou poesia: "Mais hum', "Colmeia de concreto", "Os olhos do silêncio", "O sabor dos sentidos", em 1995, 1997, 1999 e 2001, respectivamente, para, em 2009, apresentar o seu "Adiante dos olhos suspensos".
    Professor há praticamente 20 anos, editou o livro didático "Texto argumentativo - teoria e prática", o ensaio "A metáfora em textos argumentativos" e "Entretextos - artigos e entrevistas". Pelo que aqui se informa, constata-se ser Dilson Lages Monteiro um devotado cultor da literatura e da língua pátria.
    Agora ele se dispôs a ingressar num campo novo: o romance, e assim apareceu "O morro da casa-grande", 2009, pela Nova Aliança, de Teresina. Porque o autor é do Piauí e, ao entrar novo gênero, decidiu prestar homenagem tolstoiana à sua cidade natal - Barras.
    No pequeno volume, bem elaborado, quase uma extensa crônica de uma cidade que se deixa envolver pelo fascínio do progresso, esquecendo velhas tradições e procurando, com sua população, um novo lugar ao sol do desenvolvimento.
    Com esse propósito e diante da indesviável destinação, vê ruir costumes e construções, e entre estas a igreja de Nossa Senhora da Conceição das Barras, no morro da casa-grande.
    É um trabalho interessante, a que não faltam vocábulos praticamente não usados no Sudeste e no Sul, expressões bem próprias do interior piauiense. Mas um texto agradável, com uma narrativa que faz sentido e tem propósitos claros, entre os quais o de proteger tanto quanto possível o legado das velhas gerações.
    Primeiro, perdeu-se o cemitério "onde uma geração inteira se fechava, uma geração apagava o tempo. A filha Perpétua partiu primeiro. Antes dela, os dois netos: um, quase anjinho, de doença feia; outro, rapazote feito, de desastre".
      Os personagens são típicos, como aqueles meninos que mataram o gordo camaleão na mangueira do quintal e o arrastaram com uma embira presa ao pé até uma palhoça. Lá, Maria abriu o bicho, tirou as carcaças de couro, limpou as impurezas e jogou a carne sem cor numa panela. Enquanto ela ria, Marciano, um dos curiosos, contorcia-se em náuseas, por muitos dias revolvendo na memória de criança a imagem do bicho fervendo.
    Será que fariam isso com criança também?
    Houve o dia em que um bando de ciganos cruzou a cidade, obrigando a população a se esconder em suas casas.
    Temiam-se furtos, inclusive de meninas desprevenidas. Eram mais de cem e, da última vez em que por ali passou um grupo, levaram até as galinhas de Alzira.
    O menino se perguntava: por que não davam para eles um pedacinho de chão para morar, já que eles corriam o mundo atrás de um quinhão de terra? As janelas ficavam fechadas, enquanto os menores se indagavam sobre as razões que levaram aquelas pessoas a perambular.
    O adolescente, ou quase, se interessava por tudo e todos os detalhes. Atanava-lhe a figura do coronel, a gente que dava ordens. O que era mesmo um coronel? "Gente que mandava: mandava em gente, em bichos e na própria terra".
    No entanto, o coronel já não tinha interesse em mandar. "Ele conhecia bem os sentidos dessa palavra, mas a substância dela perdera o gosto. Não mais desejava mandar no que fosse. Que mandassem os filhos, os netos. Queria somente - e não cansava de isso repetir - saborear o tempo que lhe sobrava... Vivia mastigando isso: Já não decido mais nada. Vivo para viver!"
    O lugar mudava. Ele, coronel, queria paz de espírito, duvidando que os bisnetos conseguissem viver no campo. A vida passaria a ser nas cidades - vida de escolas, eletricidade, automóveis, rádio". Não iriam querer disputar espaço com árvores, bichos e escuridão".
    Assim é esse livro, agradável, uma história bem alinhavada e descrita.                                                                                              Publicado originalmente no jornal Hoje em Dia (BH-MG), em 11.02.2010.