(* ) Dílson Lages Monteiro Ao declarar guerra ao discurso da arrogância e aos estereótipos, Roland Barthes, no belíssimo livro-discurso “A Aula”, ironicamente, traduz o sentido da sabedoria: “Há uma idade em que se ensina o que se sabe, mas em seguida vem outra idade em que se ensina o que não se sabe. (...) Em seguida, vem talvez a idade de outra experiência, desaprender: em que se deixa trabalhar o imprevisível que o esquecimento impôs à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças. Esta experiência tem nome ilustre: sapientia. Nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sagacidade, o maior sabor possível”. Melquisedeque Viana, em “Espelhos do Ocaso”, sua mais recente livro de poesia, sente pulsar na alma a idade de desaprender de que fala Barthes, expressando-a numa poética de fortes tons existências, em que a introspecção refinada revela a inquietude mediante as incertezas do futuro,focalizado pela visão de quem chega ao crepúsculo da vida. O que conduz o eu-lírico a essa sensação? A angústia que o persegue brota da descrença no homem e se consolida na insegurança, no medo, na desilusão, tematizados ao longo de toda a obra, na demonstração da “trilha incerta de um amanhã distante”. Amanhã, permanentemente, assinalado pela ânsia de justiça e de prazer, perpassados pelo sofrimento. O sofrer do poeta surge também, ora, da necessidade de negar um mundo insensível: “A poluição da época embrutece os sentidos do homem moderno que vagueia sem rumo pelas calçadas do tempo”. Ora, das contradições advindas dos turbilhões do sentimento, como no poema em que define o amor: “Na poeira das estrelas escrevi meu poema de amor (...) O vento que não sopra Tornou intocável A minha desventura E sinistro O meu eterno vício De sonhar”. A angústia do eu-lírico origina-se, acima de tudo, da consciência de que o homem é ser para a morte. Daí, nasce a preocupação com o tempo, esse monstro invisível que a todos consome. Daí, os poemas trazem no fundo algo em comum – refletem milenares interrogações da humanidade – “O que sou? Para onde vou?” Além do mergulho em versos de cunho eminentemente existencial, o leitor de “Espelhos do Ocaso” mergulha numa poesia cuja filosofia dos subentendidos, através de imagens sintéticas e singelas, convida o leitor à redescoberta de si, concedendo ao texto o combustível da satisfação. Melquisedeque Viana explode as cores da perplexidade, as quais a imaginação exercita, e, em meio a divagações e a devaneios, vai mostrando a força transcendental da poesia. Assim, suas palavras soam como alívio para “as fibras sonoras que compõem o coração” e, com efeito, levam que as ler ao reencontro consigo mesmo e com o significado da vida. Dílson Lages Monteiro é professor e poeta.>