O amor e a mulher em Vinícius de Moraes

 

                                         Dílson Lages Monteiro (*)

 

        Conforme Aristóteles (384 a.c.), “amar é querer para outrem aquilo que reputamos serem bens, e isto não no nosso interesse, mas no interesse da pessoa amada; é também, na medida de nossas forças, agir para proporcionar-lhes essas vantagens”. Cotidianamente, essa definição aparece como um das mais freqüentes para explicar o amor.

        Não obstante o valor universal destinado à assertiva supracitada, o amor também se traduz, de acordo com Sócrates (480 a.c.) em desejo de imortalidade, de procriação, de possuir o que é bom. Quando em discussões literárias o assunto floresce, não raras vezes, costuma-se citar o poeta Vinícius de Moraes – cognominado pelo biógrafo José Castello e por uma constelação infinita de admiradores de poeta da paixão.

        Como Vinícius vislumbra o amor? No “Livro de Sonetos” (Companhia das Letras, 16a.edição, 1991), obra indicada como leitura obrigatória pelo Programa Seriado de Ingresso à Universidade, da UFPI, o eu-poético ama mais o corpo que o espírito; o amor, “infinito enquanto dure”.

        O amor visto sob o ângulo da materialidade se faz notar nos mais admirados sonetos da coletânea e incita algumas notas acerca do perfil feminino nos poemas. Percebe-se ao longo de toda a obra  a “depreciação” da mulher, resultado da frenética busca de prazer ao grau absoluto, ratificando idéia de Freud (para alguns, machista e absurda) – “O homem desenvolve potência completa quando se acha com um objeto sexual depreciado”.

        A esse propósito, serve como exemplo o tratamento atribuído à mulher em “Soneto de Devoção”: “Essa mulher é um mundo! Uma cadela,/ Talvez... – mas na moldura de uma cama/ Nunca mulher nenhuma foi tão bela!” Além disso, a “depreciação” do objeto amoroso se faz perceber, salvo em raros momentos, no fato de que a mulher pura, alegre, desinteressa ao eu-lírico: “De tanta graça e leveza tanta/ Que quando sobre mim, como a teu jeito/Eu tão de leve sinto-te no peito/ Que o meu próprio suspiro te levanta./ Tu, contra quem me esbato liquefeito/ Rocha branca! brancura que me espanta/ Brancos seios azuis, nívea garganta/ Branco pássaro fiel com que me deito./ Mulher inútil (...)”

        A procura de prazer ao máximo grau possível revela o desejo de perfeição, que, fracassado ou vivenciado, verte-se em angústia, como expressam o “Soneto do Maior Amor” (p.27) e o “Soneto do amor Total” (p.91). Acrescente-se ainda que o prazer está diretamente ligado a um pensamento Freudiano – “Pode-se verificar, facilmente, que o valor psíquico das necessidades eróticas, se reduz tão logo se tornam fáceis suas satisfações. Para intensificar a libido, requer-se um obstáculo”: “Maior amor nem mais estranho existe/ Que o meu, que não sossega a coisa amada/ E que só fica em paz se lhe resiste o amado coração (...)”

        O amor em Vinícius é, visceralmente, instinto; desassossego ( equilíbrio e desequilíbrio), efêmero, paradoxo: “Distante o meu amor, se me afigura/ O amor como um patético tormento/ Pensar nele é morrer de desventura/ Não pensar é matar meu pensamento”.

        A mulher, como já se afirmou, deixa de ser, via-de-regra, casta e de reputação irrepreensível, a fim de que se transforme em objeto amoroso, para satisfação dos prazeres da carne.

(*)Dílson Lages Monteiro é poeta

 

>