Dílson Lages Monteiro(*) O que quer o poeta? Lendo escola de Ícaro – o exercício necessário da queda , livro de estréia do poeta e professor Wanderson Lima, publicado em 1999, mergulhei em uma paisagem sedutora, em que a claridade se mistura à escuridão e as sombras do humano se estendem pelos caminhos da busca incessante do ser. Por isso, sou levado a revigorar as palavras de Freud, para quem o poeta é um feiticeiro, guiado pela inspiração, que exprime suas fantasias e torna-as aceitáveis e até prazerosas a outros, realizando os desejos próprios e os alheios. Desse modo, ele escreve em função do que deseja ser ou ter e, assim, mostra-se permanentemente, insatisfeito. A arte, pois, consiste na mais elevada forma de sublimação, no mais completo exercício de liberdade. Consciente disso, Wanderson encarna a angústia como matéria prima do fazer poético, ora versando sobre o comportamento e suas reações ante a vida psíquica e a realidade exterior; ora tematizando o poeta e seu ofício, como nos versos que abrem as estradas do livro. Versos nos quais define o vate como uma criatura múltipla, fragmentada, resistente, que faz da palavra o grito capaz de saciar as vontades do ego: “Eu/ mármore de mim e de outras sombras/Vivo o chumbo das Eras e os golpes de Eros/ Eu estilhaço e baba do fim de tarde/ Grito grito grito minha fraqueza/ Para não morrer de fome e de silêncio”. A confirmação da angústia como tema central da obra advém da obsessão do poeta em repetir imagens em que procura caracterizar a vida, numa tentativa frenética de barrar as efemeridade das horas. A vida se confunde com o próprio pensamento e, em tom de oração, revela-se imprecisa e confusa: “Rio nosso que escorre/ leva lembranças e laços./ Leva o riso o viço e a vaidade/ e a vontade/ Em suas águas barrentas/ arquejando de dor/ mil fantasmas pastam”. Nesse contexto, a poesia é motivo para existir, para superar a hipocrisia, a imperfeição, os riscos, a desilusão; é motivo para a alma se renovar, para aceitar as perdas, para se consolar, para amar. Ao construir essa cosmovisão, o poeta sacraliza a palavra como o campo da perfeição, do eterno, espaço onde as fronteiras se apresentam exatas, permitindo adentrar na essência do espírito e no cotidiano das relações consigo mesmo e com o outro. Comportando-se assim, o poeta concede universalidade à sua poética e endossa Goethe, para quem “toda característica humana, não importa quão peculiar, e toda representação, desde a pedra até a escalada do homem, tem certa universalidade”. A universalidade que permeia os temas se traduz literalmente quando o vate defini o amor numa concepção madura e filosófica, como capacidade de provocar perdas. Também se manifesta, por exemplo, ao expressar a reação do eu-lirico ao materialismo, através de versos dotados de fina ironia: “Ratinho sem graça/ como eu/ brinca na minha estante de livros/ ratinho não quer aprender nada/ quer só roer./ eu também ratinho/se pudesse/viveria só de roer/ no só ser/ nem os dentes eu escovaria”. Os que lêem Escola de Ícaro estão diante de boa poesia, porque Wanderson é um poeta preocupado com o acabamento, sem descuidar do conteúdo, sem se perder em jogos cerebrais. Comportando-se dessa forma, lembra-me definição sobre o bom poeta na ótica de Henriques do Cerro Azul: “Na construção de um edifício não basta a solidez dos alicerces, das paredes, das colunas. Não basta que a construção seja sólida. É preciso ser bela. Por isto é necessário o acabamento do prédio. Os azulejos , as pias, o revestimento das paredes, do teto, do piso devem ser de primeira qualidade, e a decoração tem um papel superior. Isto faz a diferença entre o edifício pronto e o edifício em construção. Igualmente na poesia é o acabamento que faz a diferença entre o grande poeta e o poeta medíocre. A grandeza dos versos de Wanderson reside no olhar obstinado sobre a palavra exata, o que o norteia a burilar, concomitantemente, o velho e o novo, o clássico e as vanguardas, passeando por formas diversas: o soneto, a elegia, a ode, o haikai, a balada , o cromo e o verso livre. O que quer o poeta? Em Escola de Ícaro – o exercício necessário da queda, a poesia tenta transcender o fugaz, no intento de suportar a inconstância do humano em contínuo transe.>